O livro “As Intermitências da Morte”, de José Saramago, traz a estória de um país onde as pessoas, a partir do primeiro dia de janeiro de um ano específico, param de morrer. O que no início causou felicidade geral, logo se mostrou uma realidade desesperadora. Sem a morte e com a vida suspensa, a vida não se esvai, mas também não volta e quem está para morrer vive assim indefinidamente. Em pouco tempo os hospitais e asilos ficam lotados e o governo precisa definir o que será feito com a aposentadoria e seguros de vida. Surgem máfias especializadas em levar os moribundos para fora das fronteiras do país, onde as pessoas ainda podem dar o seu último suspiro e morrer.

Na realidade atual, não chegamos ao ponto de termos as pessoas vivendo eternamente, mas elas estão vivendo cada vez mais. No Brasi, a expectativa de vida atual é de 78,8 anos para as mulheres e de 71,6 anos para os homens, um grande progresso frente aos 50 anos de expectativa de vida na década de 1950. E isto é muito bom, pois 5, 10, 15… anos a mais não tem preço e é um ganho de toda a humanidade, fruto de políticas de saúde, de saneamento e de prevenção adotadas pelos países.

Os idosos de hoje têm qualidade de vida, praticam esportes, fazem suas tarefas diárias, fazem tratamento preventivo de saúde, têm renda para serem auto suficientes, procuram ser independentes dos familiares, mesmo aposentados trabalham, enfim, não estão vegetando e sim vivendo mais, com qualidade e disposição. Um exemplo de qualidade de vida é a constatação de diversos idosos participarem de corridas, como a Corrida de São Silvestre, em São Paulo, com percurso longo de 15 quilômetros, existindo diversos casos de pessoas participantes com mais de 80 anos de idade.

Toda mudança causa consequências e o aumento da expectativa de vida veio a causar efeitos imediatos nas aposentadorias e na saúde. Assim, as pessoas hoje recebem por mais tempo aposentadorias e, vivendo mais, necessitam de mais tratamentos médicos e hospitalares.

Quanto às aposentadorias, a previdência social adotou o sistema de fluxo de caixa e não de capitalização dos aportes, igual às previdências privadas fechadas e abertas. Agora, com o aumento da expectativa de vida, a previdência oficial vivencia o aumento de pagamentos de benefícios, sem a contrapartida de arrecadação de contribuições previdenciárias.

Este quadro previdenciário não é nada alentador. Além do envelhecimento da população brasileira, temos a redução da mortalidade infantil e da natalidade, colocando em risco o sistema previdenciário brasileiro, solidário e participativo, com os segurados ativos sustentando os inativos. Assim, os trabalhadores ativos são insuficientes para financiar as aposentadorias.

As propostas de aumento dos anos de contribuição e da idade mínima para aposentadoria, se aprovadas e aceitas, ensejarão a necessidade de adoção de políticas públicas para os empregadores lidarem com os trabalhadores idosos, com adaptações arquitetônicas e do mobiliário físico.

Na questão de saúde, a rede hospitalar e o número de profissionais de saúde, mesmo tendo crescido ano a ano, ainda é insuficiente para atender às necessidades da população em geral. Além disto, o tratamento de idosos requer mais recursos financeiros e humanos.

Pelas questões acima, a revolução demográfica brasileira constitui uma grande conquista e as suas consequências devem ser suplantadas pelos gestores públicos, de uma forma criativa, engenhosa, justa, solidária, social e democrática.

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