O santo nome de Jack Kerouac ? tantas vezes usado em vão em manobras pop pouco interessantes ? circula de forma diferente e, na medida do possível, livre, nas páginas de ?O Livro de Jack?, lançado este mês pela editora Bibilioteca Azul.
Trata-se da reedição da obra, lançada originalmente em 1978, lá fora. O formato adotado por esta biografia, calcado nos depoimentos orais, garante um perfil extenso e pouco censurado do escritor norte-americano, autor de um clássico de certa forma fundante de um braço da contracultura sessentista, ?On The Road?, e membro central de uma geração literária (a Beat Generation) que, no inverso da frase de Neruda, foi viver e abriu os livros ? escritos por eles mesmos, claro.
Cláudio Willer é um dos maiores especialistas na obra do escritor no Brasil. Autor de ?Geração Beat? (2009), além de tradutor de Allen Ginsberg e do ?Livro de Haicais?, do próprio Kerouac, elogia a proposta do livro, de mapear Kerouac através de outras vozes. ?Como Kerouac é autobiográfico, a obra complementa o que ele escreveu, sobre si mesmo e sobre todas aquelas pessoas?, diz. ?A bibliografia sobre Kerouac cresceu muito, de 2000 para cá. Ensaios focalizando o autor e outros específicos, detendo-se no texto, complementam-se, somam-se. Tem para todos os gostos: abordagens mais sociológicas, mais formalistas, crítica genética?, lembra. ?O Livro de Jack? mantém uma importância seminal em relação à (hoje) extensa bibiliografia de Kerouac. ?Serviu como guia para o que foi feito depois, e tem o atrativo de trazer depoimentos de quem esteve lá?, diz Willer.
A obra inspira pensar qual o lugar de Kerouac hoje, seja no cânone literário ? já que muitas vezes a fama do sujeito supera a fama obra ?, seja como espécie de figura mítica, que continua rondando as inquietas das atuais gerações. Chama atenção em relação a lançamentos como esses a noção de jogar luz sobre Kerouac, não apenas como escritor, mas também como espécie de ícone.
A ideia do mito sempre rondou os interesses do escritor. ?A perambulação pelas estradas, os contatos com novas culturas, mostram a busca por uma América mitológica?, elenca o escritor e compositor Chico Amaral. ?Corresponde às visões que os pioneiros tinham do paraíso, a vastidão de terra. E recusando o que era contemporâneo, o ?american way of life?, a ideia de um destino previamente traçado, comum nos anos 1950?, ilustra Amaral.
?Jack Kerouac foi um homem muito sensível e com um desejo de liberdade irrefreável?, diz o escritor Leonardo Alvarenga, cujos versos presentes em ?Espasmo?, sua estreia poética lançada este ano, possuem débito afetivo com a obra de Kerouac. ?Teve uma educação católica que o fez buscar por um tipo particular de ?santidade? ? no livro descreve a perda de seu irmão, Gerard, morto ainda criança, como um santo. Quando adulto, acabou se interessando por budismo, sem jamais deixar de ser católico, e acirrou a sua noção de que toda vida era ?sagrada? e que deveria ser vivida da forma mais esplendorosa possível, como em uma epopéia?, conclui.
Ou seja, sua obra pode ser vista também como a busca pelo sagrado, no equilíbrio com o profano. ?A tentativa de se alcançar a beleza e a santidade, tanto é que o próprio termo ?beatnik? joga com o sentido ?beatitude?, afirma Alvarenga.

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