A greve dos caminhoneiros mostrou uma das formas de luta pela distribuição da riqueza da sociedade brasileira, onde uma classe trabalhadora se insurge para pleitear uma participação mais justa nos ganhos financeiros.
Os preços dos combustíveis foram controlados nos governos de Lula e Dilma com o objetivo de não gerar um surto inflacionário.
Como resultado, tivemos uma erosão da capacidade financeira da Petrobras para fazer os investimentos exigidos de forma crescente para o pré-sal, os retornos para os acionistas diminuíram e, por estes fatores e outros (Operação Lava Jato e queda do preço internacional do petróleo), tivemos uma contínua queda do valor de mercado da empresa.
Cabe mencionar que a Petrobras e a Vale detêm grande volume de operações e de giro financeiro no mercado acionário. Suas cotações positivas ou negativas afetam todo o mercado. Por este motivo, os investidores sentiram-se prejudicados com a queda ininterrupta dos preços das ações da Petrobras e os reflexos negativos no mercado acionário. Patrocinado por estes investidores, estas reclamações foram propaladas nos meios de comunicação.
O Governo Temer, apoiado pela classe financeira, implantou uma nova política de reajuste dos preços dos derivados do petróleo, com incremento da frequência dos reajustes, inclusive diário, para acompanhar a volatilidade da taxa de câmbio e das cotações internacionais dos preços do petróleo. Por esta nova política, tivemos o contínuo reajuste pela Petrobras dos combustíveis e do gás de cozinha.
Esta nova política causou uma disparada das cotações das ações da empresa, fazendo a alegria do mercado financeiro, mas, por outro lado, gerou altos preços dos combustíveis e gás de cozinha, com desconforto para o restante da sociedade.
Assim, em 2018, os mesmos meios de comunicação que criticavam o controle de preços dos derivados do petróleo, passaram a estampar notícias de dificuldades da população, principalmente de preocupados com os eleitores em um ano de eleições no Brasil.
Neste contexto, os caminhoneiros, como a maioria da população, conviviam com diversas dificuldades no dia-a-dia, seja pelo baixo preço do frete ou pelos pedágios sobre o eixo suspenso. O encarecimento dos combustíveis de forma contínua foi o estopim para vir à tona toda a insatisfação deles. Além disto, a sua greve foi apoiada por milhões de brasileiros sufocados pelo aumento do custo dos derivados do petróleo.
A razão do problema é simples e a solução é difícil. Todas as cadeias produtivas da sociedade capitalista (seja o produtor de grãos, o criador de frangos, o agricultor, o empresário urbano, o caminhoneiro, o trabalhador assalariado, etc.) necessitam de ganhos para garantir que seus custos de produção e de trabalho sejam pagos, além de necessitarem ganhar um valor adicional para as necessidades pessoais. Por outro lado, o mercado necessita que os consumidores tenham produtos e serviços a preços acessíveis e com qualidade.
Solucionar esta equação (ganhos para todos os agentes do setor produtivo e valores acessíveis dos produtos e serviços) é a grande dificuldade do capitalismo. Felizmente, a nossa democracia tem meios dos agentes reclamarem sobre as condições de vida inaceitáveis, demonstrando insatisfação e reivindicando melhores condições de trabalho, na busca do equilíbrio, pois todos os agentes do setor produtivo merecem ser melhor remunerados e podem reivindicar os seus direitos.
Entretanto, considero termos a necessidade de enfrentar o setor financeiro. Este setor, no Brasil, não produz nada esomente retira da sociedade ganhos às custas de spreads elevadíssimos (diferença entre a captação e aplicação dos recursos financeiros) e de lucros de aplicações diárias em ações e opções, com o intuito de consolidar a financeirização da economia brasileira. Sempre obtém lucros bilionários, mesmo em períodos de recessão, mas agem como parasitas em nossa sociedade e nem fazem sacrifícios em prol da população.
Na verdade, o setor financeiro é o responsável pelas instabilidades e crises do Brasil atual e é imperioso regular melhor o seu funcionamento sob todas as formas, para não continuar a ter o único fim de obter lucros à custa de sacrifícios de todo o restante da sociedade.
No caso específico da Petrobras, fica fácil notar pelo relato acima, que poderíamos ter adotado preços menores para o povo e garantir a saúde financeira da empresa, com a utilização, talvez, de imposto flexível ou tributar, como no resto mundo, os ganhos sobre os dividendos recebidos pelos acionistas, que seriam utilizados para subsidiar o preço dos combustíveis.
Mesmo após a renúncia recente do presidente da Petrobras, Pedro Parente, o governo se apressou a apaziguar os ânimos dos investidores, inclusive nomeando Ivan Monteiro como o novo presidente da estatal, pois este é o responsável pelo relacionamento com os investidores. Assim, o atual governo apressa-se a atender aos interesses dos rentistas e se delonga demais a ouvir os ruídos das ruas, seja de pessoas com dificuldades de abastecer seus veículos ou mesmo a incapacidade do povo de pagar os novos preços do gás de cozinha.
Para surpresa de todos, o Governo Temer após governar o país de “costas” para o povo, sem ouvir os rumores da população, determinou à Agência Nacional do Petróleo (ANP), e esta divulgou na terça-feira (5), a realização de consulta pública, via acolhimento de sugestões no período de 11 de junho a 2 de julho, para discutir a periodicidade do reajuste dos combustíveis, com a finalidade de subsidiar nova sistemática de reajuste. É a caça ao voto do eleitor e, após a eleição, volta-se à normalidade neste país, com os governantes tomando decisões completamente em dissonância com os interesses do povo.

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