Por fim, encerrou-se o prazo para as desincompatibilizações, filiações partidárias, mudanças de legenda e de domicílio eleitoral, habilitando os candidatos às eleições de outubro. Na mesma data, no entanto, o fato político mais relevante foi a prisão de Lula, não porque seu encarceramento o tira da disputa, fato já determinado por sua condenação em segunda instância, mas por seus efeitos nas estratégias dos partidos na corrida presidencial.
As eleições deste ano serão muito diferentes das anteriores. Por um lado, os impactos da operação Lava Jato, que atingiu todos os grandes partidos, excluíram da disputa dois dos principais líderes até então – Lula e Aécio –, enfraquecendo a polarização PT-PSDB e, em consequência, estimulando a pulverização de candidaturas. Por outro lado, o presidente da República, que, desde a aprovação da reeleição, foi um candidato competitivo, desta vez terá sua ação fortemente limitada por denúncias de corrupção e pela alta rejeição do eleitorado.
Outros fatores que tornam as eleições deste ano singulares são o tempo mais curto de campanha e o financiamento por meio de fundo eleitoral público, que pode exceder os R$ 2 bilhões, e do autofinanciamento ilimitado.
Até o final das convenções partidárias, no início de agosto, os partidos farão as escolhas de seus candidatos e comporão suas coligações tendo em vista: 1) obter mais tempo gratuito de televisão; 2) a votação em primeiro turno; 3) a formação de bancadas no Legislativo; e 4) a complexa tarefa de conciliar interesses estaduais com a organização de palanques para os candidatos à Presidência da República.
Algumas estratégias emergem mais claramente, como a do PT, que seguirá com a candidatura Lula até quando convier, com discurso radicalizado, para mobilizar suas bases, objetivando eleger a maior bancada possível, manter o comando de Estados importantes, como Minas Gerais, Bahia e Ceará, e chegar ao segundo turno com o candidato que vier a escolher efetivamente.
O PSDB, seu tradicional adversário nas eleições anteriores, tem difícil desafio para conseguir construir a aliança mais ampla possível visando também buscar uma vaga no segundo turno. Embora hoje já tenha o apoio do PSD de Kassab, terá dificuldades em obter a adesão do DEM, atualmente com candidatura própria. O PP ainda é uma incógnita, e o PSB, que apoia Alckmin em São Paulo, poderá agora ter seu candidato próprio, com a filiação de Joaquim Barbosa.
O PMDB provavelmente ficará dividido, quer em razão de suas alianças regionais, quer em razão da incerteza política de Temer. A filiação de Meirelles não sensibiliza as lideranças do partido, exceto pela possibilidade do autofinanciamento de sua campanha, liberando o fundo partidário para os candidatos ao Parlamento.
Os candidatos de partidos menores se beneficiarão. Bolsonaro (PSL) está penetrando tanto nas bases tradicionais do PSDB quanto em setores petistas. Ciro Gomes (PDT) e Marina Silva (Rede) esperam conseguir avançar em redutos que buscam outras opções: Ciro, nas bases petistas, principalmente no Nordeste, e Marina, nos centros urbanos, onde teve votação expressiva nas eleições passadas. Alvaro Dias (Podemos) e Joaquim Barbosa (PSB), duas caras novas nessa disputa, poderão crescer ao longo dos próximos meses se confirmarem suas candidaturas.
Se, sem Lula, o PT perde os votos da classe média urbana, o PSDB, no âmbito de centro-direita, perde com a pulverização de candidaturas.
Assim, dificilmente a polarização PT-PSDB se repetirá.

IMPRIMIR