Mais de 100 mil brasileiros fizeram cirurgia bariátrica em 2016, número 7,5% maior do que no ano anterior. Com um crescimento proporcional à epidemia de obesidade no Brasil, o procedimento costuma ser bem-sucedido na grande maioria dos casos, mas traz ao paciente uma nova realidade de vida, para a qual ele nem sempre está preparado. Um dos quadros que têm chamado a atenção dos médicos é o aumento do consumo de bebida alcoólica pelas pessoas que passaram pela cirurgia.

Cerca de 19% delas desenvolvem o chamado “transtorno de uso de álcool”, de acordo com revisão de estudos apresentada nessa quarta-feira (25) no Congresso Brasileiro de Psiquiatria, em São Paulo, pelo médico Adriano Segal, responsável pelo Setor de Psiquiatria e Transtornos Alimentares da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso).

Segundo ele, a questão começou a chamar a atenção dos médicos em 2012, quando começaram a ser feitos alguns trabalhos para tentar medir o alcance do problema. “Os estudos são bem variados, pelos diversos tipos de cirurgia que existem, mas seguramente podemos falar em 19%, um índice bem alto. É maior do que o risco de morrer jogando roleta-russa com uma arma com seis balas”, compara o especialista.

Entre as causas do problema, a principal é a mudança na absorção do álcool pelo organismo após a cirurgia. Com a alteração da fisiologia do aparelho digestivo, a substância passa direto para o intestino e é absorvida mais rapidamente, além de demorar mais tempo para ser eliminada. “Enfim, a cirurgia bariátrica aumenta a sensibilidade à bebida alcoólica”, diz Segal. Consequentemente, segundo o médico, aumenta o risco de dependência e dos transtornos. “Cada vez mais jovens estão se submetendo à bariátrica, o que também pode justificar essa relevante incidência do problema”.

Obesos já são mais propensos a apresentar problemas psiquiátricos do que a população em geral, lembra a médica Maria Francisca Mauro, especialista no tema. Não são raros transtornos do humor, de ansiedade e de alimentação. A recomendação é que uma equipe multidisciplinar e a família fiquem atentas a situações de desnutrição que indiquem quadros depressivos, ou qualquer outra manifestação psiquiátrica, e a transtornos que surjam após a realização do procedimento.

“A realização de um pré-operatório adequado é a estratégia mais recomendada. É você conscientizar o paciente nessa fase de que o pós-operatório vai fazer parte ‘a eternum’ da vida dele. É claro que num primeiro ano de forma mais intensa, depois de forma mais seriada, mais espaçada. Mas ele ter esse entendimento é essencial”, afirma a médica. Com um atendimento acolhedor, o paciente continua frequentando as consultas médicas. Segundo ela, a relação médico-paciente é essencial para garantir esse acompanhamento e evitar o aparecimento ou agravamento dos transtornos psiquiátricos.

 

O Brasil é considerado o segundo em número de cirurgias bariátricas, e as mulheres representam 76% dos pacientes. O sobrepeso é constatado quando o Índice de Massa Corporal (IMC) é de 25 até 29,9. Com o IMC a partir de 30, a pessoa é considerada obesa. O IMC é calculado dividindo o peso pela altura elevada ao quadrado.

 

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Fonte:

O Tempo