Crianças e adolescentes hiperativos, agressivos e transgressores, com dificuldade de se relacionar, podem ter uma variante genética que é encontrada também entre adultos que fazem uso abusivo de álcool, indicando uma predisposição para a dependência química.

Pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) encontraram esses resultados ao estudar a relação entre genética e alcoolismo. A conclusão foi apresentada no Encontro Internacional Descriminalização das Drogas, em Belo Horizonte.

À frente da pesquisa, a professora Ana Lúcia Brunialti Godard, do Departamento de Biologia Geral da UFMG, destaca que o ambiente no qual a pessoa está inserida também tem forte influência no uso abusivo de álcool – sendo esse, segundo ela, comprovadamente, porta de entrada de outras drogas. A prevenção dentro da comunidade, inclusive, é capaz de se sobrepor a questão genética, evitando que uma pessoa se torne dependente química, defende Ana Lúcia.

Foram pesquisadas 3 mil pessoas de dois grandes grupos, um de crianças de 4 a 11 anos com e sem o comportamento chamado externalizante (agressivo, transgressor etc.) e outro de adultos dependentes de álcool e não dependentes.

Essa foi a segunda fase realizada com humanos, antecedida por uma etapa de análises em camundongos que mostrou uma relação do gene LRRK2 com a falta de controle sobre o consumo de etanol. A primeira descoberta foi publicada em uma renomada revista científica americana.

Prevenção social

 Agora, com a nova conclusão do estudo genético do alcoolismo e influência do ambiente populacional, a professora quer mostrar que é necessária a prevenção social de uso de drogas e a não a criminalização. “O olhar para esse jovem (hiperativo e/ou dependente) deveria ser um trabalho de saúde pública no sentido de prevenir para reduzir o número de usuários (adultos) no futuro”, explica a pesquisadora. Tratar esses indivíduos como criminosos, como está na lei hoje, seria então desconsiderar que “os jovens que estão ali fazendo uso de drogas não são necessariamente criminosos, mas perderam a capacidade de não usar de forma abusiva aquela droga”, explica.

A falta de estrutura e investimento para prevenção às drogas, com disponibilidade de atividades esportivas e artísticas, principalmente para a população de baixa renda, não pode, na avaliação de Ana Lúcia, ser motivo para criminalizar o usuário. “A gente tem que trabalhar para gerar recurso. É até hipócrita criminalizar o uso individual de uma droga ilícita, tendo drogas lícitas muito piores, como o álcool e o cigarro”, conclui a professora.

A ideia é que a pesquisa ainda possa ser usada para encontrar novos tratamentos para o alcoolismo.

 

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Fonte:

O Tempo