A Embraer foi privatizada em 1994, após adotar “golden share” (ação de ouro), com a criação de ações retidas pelo poder público, para garantir o controle acionário público e estratégico da empresa.
Atualmente a Embraer é negociada em bolsa de valores e seus maiores acionistas são as americanas Brandes Investment Partners e Black Rock, que detém 14,9% e 5,5% da empresa, respectivamente, a inglesa Mondrian Investment Parners, com 9,9%, o BNDES (BNDES par) com 5,4%, a Previ, fundo de previdência dos funcionários Banco do Brasil, tem pouco menos de 5%.
Agora, em 2018, a Embraer apresenta um movimento de associação empresarial com a Boeing e, após diversas tratativas, chegou a um resultado final, difícil de entender e procurarei explicá-lo.
A Boeing é uma gigante do mercado mundial de aviação, sendo a maior exportadora dos EUA, maior empresa mundial aeroespacial, líder na fabricação de jatos comerciais e sistemas de defesa.
A Embraer, conforme seu relatório de 2017, é apresentada para os investidores como a principal exportadora de valor agregado no Brasil e líder mundial na fabricação de aviões comerciais até 150 assentos.
No caso, o acordo com a Boeing foi uma alternativa apresentada pela Embraer para enfrentar a concorrência, após a absorção da Bombardier pela Airbus. Com o acordo, cuja versão definitiva será elaborada até o fim de 2019, após aval de órgãos antitruste em diferentes países, a Boeing garantirá a liderança global em aviação comercial com portfólio de aeronaves de 70 a 450 assentos.
O acordo assinado prevê a criação de uma nova empresa, com a venda de 80% da área de aviação comercial da Embraer para a Boeing. Pela participação de 80% na nova entidade, a Boeing pagará US$ 3,8 bilhões, deixando a Embraer com os negócios de aviação executiva, serviços e defesa, além da fatia remanescente de 20%.
A joint venture (acordo entre empresas com objetivo comercial) ficará com a fábrica principal da Embraer em São José dos Campos, além da unidade da Eleb (fabricante de trem de pouso e peças relacionadas) e as instalações de Taubaté (SP) e Évora, em Portugal, onde produz peças estruturais. Todas as equipes ligadas à aviação comercial passam a estar vinculadas à empresa resultante da jointventure. Com sede no Brasil e de capital fechado, a nova empresa foi avaliada em US$4,75bilhões.
A Embraer terá a opção de, nos próximos 10 anos, vender sua participação de 20% para a Boeing e, após esse prazo, poderá vender a fatia para qualquer interessado.
A Boeing terá o controle operacional e a gestão da nova empresa. A Embraer, por sua vez, terá assento no conselho de administração.
Os entendimentos preveem também a constituição de uma segunda joint venture, desta vez controlada pela Embraer, para promoção comercial, especialmente do avião de transporte militar multimissão KC-390. A participação acionária exata de cada sócio ainda não foi definida.
O aproveitamento da mão de obra da Embraer, considerada altamente qualificada e bem treinada, também foi um dos pontos de interesse da Boeing para a composição da joint venture, pois a indústria aeronáutica americana sofre hoje problemas graves de mão de obra qualificada.
Este acordo tem diversas dificuldades, principalmente os altos investimentos feitos pelo governo brasileiro em projetos estratégicos de defesa dentro da Embraer, pois, somente no projeto do jato de transporte militar KC-390 os investimentos em desenvolvimento e produção são estimados em mais de R$12 bilhões.
A cadeia de fornecedores da Embraer, cerca de 70 empresas brasileiras, empregando em torno de 5 mil funcionários, teme a nova aliança, por eventuais dificuldades de acesso ao mercado global e pelo fato de a aliança não mencionar a cadeia de fornecedores da Embraer. Pediram aos representantes do governo e da Aeronáutica a proteção e mais incentivos para a base industrial brasileira, além da garantia de poder atender a um mínimo de contratos da cadeia de fornecimento global da Boeing. A Embraer pediu aos seus fornecedores que se adaptassem às certificações internacionais utilizadas pela Boeing em suas compras.
Esta aliança tem apenas efeito financeiro imediato para a Embraer, destruindo a estratégia de segurança nacional da empresa, construída durante décadas, alicerçada em soluções comerciais e de defesa. Preferiu-se vender todo o portfólio de aviação comercial para a nova empresa formada, com o recebimento de US$3,8 bilhões da Boeing, com discurso para a opinião pública de ser uma união vantajosa para ambas as partes, onde a Embraer tem participação minoritária, ficando com minguados 20% de participação e ainda entregando o controle para a Boeing, com sede da nova empresa no Brasil, mas sob o controle operacional e de gestão da Boeing.
O governo brasileiro, fragilizado por acusações de corrupção e vivendo dias finais de mandado do Executivo, não se manifestou eficazmente contra ou a favor do acordo, apesar da oposição acenar com medidas para tentar anulá-lo.
Por tudo apresentado acima, está comprovado ter sido a negociação completamente lesiva aos interesses nacionais (comerciais e de segurança da Embraer e do Brasil), onde a Embraer renuncia a décadas de trabalho, de investimento e de pesquisas tecnológicas. O governo brasileiro, soberanamente, pode e deve vetar esta transação comercial, não ficando subjugado a pressões diplomáticas do governo americano que, em casos parecidos, sempre intervém para defender os interesses de suas empresas.

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