“Agora eu me reconheço”, afirmou Sara Policarpo, de 25 anos, que na terça-feira (24) conseguiu tirar a segunda via do documento de identidade em Itaúna, com uma foto onde os traços característicos não foram editados. Ela afirma ter sofrido preconceito racial ao tentar tirar a foto para renovar o documento em Divinópolis. Na ocasião, o fotógrafo teria alterado a foto da jovem e da filha dela, apagando parte dos cabelos afro de ambas, alegando que seria para atender a uma norma. A Polícia Civil investiga o caso.

A segunda via do documento foi emitida em Itaúna, assim como o Documento de Identidade da filha com a foto que ela mesma tirou em casa e que foi recusada pelo fotógrafo de uma empresa em Divinópolis no dia 20 de novembro. Sara afirmou que o profissional disse que a imagem não se enquadrava nas normas exigidas pela Unidade de Atendimento ao Trabalhador (UAI).

Ao registrar o caso na polícia, Sara representou contra o dono da empresa e foi ouvida pelo delegado Leonardo Pio, que foi quem agendou para que ela conseguisse emitir a segunda via do documento dela e da filha, na UAI em Itaúna.h

Eu só procurei Divinópolis porque os atendimentos em Itaúna estavam restritos por conta da pandemia. O delegado agendou e eu consegui finalmente emitir a segunda via do meu documento e da minha filha. Fiquei muito feliz, para muitos parece uma coisa boba, mas me reconhecer na foto é muito importante pra mim, até chorei de emoção”, disse Sara Policarpo.

Apoio

A jovem contou a história no perfil dela no Instagram como desabafo. Ela recebeu apoio de centenas de pessoas de diversas partes do mundo. Ao ser questionada sobre o que vivenciou, Sara disse, ainda emocionada, que se sente grata ao ver o acolhimento e empatia das pessoas em relação a ela e à filha.Me sinto como se eu tivesse gritado por socorro e as pessoas me ouviram. Fico pensando, quantas outras pessoas passaram por isso e não se manifestaram, quantas pessoas tiveram que mudar os penteados ou tiveram os cabelos editados e não falaram nada. Eu não esperava essa repercussão, mas me sinto gratificada em ver o acolhimento e a empatia das pessoas em relação ao que vivenciei”— Sara

Entenda o caso

– Reprodução Instagram – Sara Policarpo

Segundo publicação feita por Sara, que até as 19h desta terça-feira (24) tinha mais de 1.700 curtidas, ao chegar na Unidade de Atendimento Integrado (UAI) em Divinópolis, com os documentos necessários para fazer o RG, ela foi informada que as fotos 3×4 dela e da filha estavam fora do padrão exigido para fazer o documento.

Foi com a mesma foto, recusada no último dia 20, que ela conseguiu emitir o documento em Itaúna nesta terça. “Não tive o menor problema e ainda me disseram que estava no padrão sim”, detalhou.

Após ser informada de que a foto não estava adequada para o documento, a jovem foi até um estabelecimento fotográfico que fica em frente à sede da UAI, na Rua Goiás.

Ainda conforme relatou a jovem, após tirar a foto, o profissional disse que teria que cortar partes do cabelo dela, que é afro, em um programa de edição de imagens para que a foto fosse aceita para a confecção do documento.

Sara contou que questionou o profissional. Disse a ele que já havia feito fotos 3×4 para documentos anteriormente e que o cabelo nunca tinha sido um impedimento. Indignada com a situação, a jovem disse também no texto que não adquiriu as fotos feitas e voltou para casa, sem conseguir fazer o documento dela e da filha.

Ao chegar em Itaúna, ela acionou a Polícia Militar (PM) e registrou o caso. No registro, ela disse ainda que o funcionário pediu para Sara ir ao banheiro para diminuir o volume do cabelo e passar uma água no rosto.

A exigência era feita somente a ela e não para as outras clientes brancas. Para elas, ele pedia para colocar o cabelo atrás da orelha, de acordo com o registro da PM.

Na ocorrência da PM consta ainda que o funcionário editou a imagem em um programa, tirando todo o cabelo e deixando só o rosto. O mesmo fez com a imagem filha dela, o que segundo a jovem, a deixou constrangida.

A loja WD Digital, onde ela fez as fotos, informou ao portal G1 que sempre faz o trabalho dentro dos parâmetros exigidos pela portaria. Informou ainda que não houve a intenção de ofender a jovem.

Veja posicionamento na íntegra

Estamos trabalhando como sempre trabalhamos fazendo as fotos dentro dos parâmetros exigidos pela portaria que é de 70% a 80% do rosto. Estamos tranquilos, pois em nenhum momento houve a intenção de ofensa ou qualquer outro tipo de racismo ou algo parecido. A nossa intenção é sempre atender bem a todos os clientes e fazer de forma que a foto não seja reprovada, pois tem as normas exigidas. Se não fôssemos profissionais honestos, simplesmente faríamos a foto de qualquer jeito e receberia por ela, mas sempre temos a consideração por todos em fazer de forma que a foto não seja reprovada. Agradecemos desde já.

Envolvidos

Em nota, a Polícia Civil disse que segue as normas previstas na Portaria nº 2, de 15 de abril de 2019, do Instituto de Identificação, que estabelece padrões técnicos mínimos para a fotografia a ser utilizada no processo de emissão de carteiras de identidade civil em Minas Gerais.

Ainda em nota, a polícia reforçou que não compactua com qualquer conduta de racismo. O Governo do Estado, responsável pela administração das UAIs, disse em nota que recebeu as solicitações de confecção de documento de identidade da denunciante, na última sexta-feira (20).

Contudo, ambas fotografias estavam em desacordo com as recomendações da portaria, segundo a UAI. A unidade frisou que cabelo ou penteado não interferem na confecção do documento.

Regras para fotos de documento

De acordo com a polícia, as regras para fotos que vão ilustrar documentos, são as seguintes;

  • Formato 3×4 cm;
  • Ser recente (registrada há 6 meses, no máximo) e identificar a pessoa do requerente;
  • Ser colorida, tirada de frente, contra fundo branco e com iluminação uniforme;
  • O rosto e os ombros da pessoa fotografada devem estar completamente enquadrados e centralizados. Os olhos devem estar abertos, visíveis e direcionados para a câmara, sendo vedada a utilização de fotografia posada de perfil;
  • O rosto da pessoa fotografada deve cobrir entre 70% a 80% da foto, desde o queixo até a testa;
  • A fotografia deve ser realizada em alta definição e sua impressão feita em alta qualidade;
  • Não pode haver reflexos (inclusive “olhos vermelhos”), penumbras ou sombras em nenhuma parte da fotografia;
  • O requerente deve apresentar fisionomia neutra ou com um sorriso discreto, mas, em ambos os casos, deve manter os lábios fechados e sem franzir o rosto;
  • O uso de óculos é permitido, somente, quando a não utilização cause algum constrangimento. No caso da pessoa utilizar óculos na fotografia, os seus olhos devem estar totalmente visíveis, ou seja, a armação não pode ser grande, grossa ou chamativa e, principalmente, não pode cobrir os olhos, mesmo que parcialmente. Não pode haver nenhum reflexo de flash nas lentes que, também, não podem ser escuras ou coloridas, mesmo que possuam grau (exceto para deficientes visuais que se sintam constrangidos em não utilizar o acessório na foto);
  • A foto deve mostrar a pessoa sozinha, sem nenhum objeto nem pessoas ao fundo. Quando se tratar de criança, essa deve estar sem chupeta e/ou brinquedos e, principalmente, não deve aparecer na foto, as mãos ou qualquer parte do corpo da pessoa que a estiver segurando;
  • Não é permitida maquiagem carregada e quaisquer itens de chapelaria ou cobertura na cabeça, em ambos os casos, exceto se utilizados por motivos religiosos que, ainda assim, não podem impedir a visualização perfeita do rosto do requerente, nem ofender as leis nacionais, a moral e aos bons costumes;
  • É permitido o uso de brincos, colares e outros adornos na fotografia, desde que não fiquem em destaque na fotografia ou impeçam a visualização perfeita do rosto do requerente, nem ofenda as leis nacionais, a moral e aos bons costumes.

Matéria do portal G1

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