A crise de alimentos segue a mesma regra de qualquer outra crise: a demanda cresce, mas a oferta diminui. Mesmo com a expansão da fome, o Programa Mundial de Alimentos (PMA) anunciou, no final de julho, redução nas doações de comida às 1,02 milhão de pessoas em situação de subnutrição. A diferença será de pouco menos da metade do necessário: em vez de 6,7 bilhões de dólares esperados, a doação dos países para o fundo é estimada em 3,7 bilhões. Isso significa que, embora muitos países estejam se desenvolvendo, a exemplo do Brasil e da Índia, por questões essencialmente políticas, econômicas, logísticas e geográficas, menos alimentos chegam à população e, portanto, a fome tem aumentado, fazendo crescer consequentemente o número de pessoas vivendo na miséria.
?Estamos enfrentando uma queda, sem precedentes e perigosa, nos nossos fundos de emergência. Isto se deve, principalmente, ao fato de que ainda não caíram as necessidades de alimentos que se acentuaram no ano passado com a crise econômica; e observamos que a fome aumenta?, afirmou Josette Sheeran, diretora do PMA em Washington. Ela atribui a queda dos donativos a orçamentos governamentais mais rígidos adotados depois da explosão da crise financeira internacional, no final do ano passado.
Um exemplo de medida adotada por governos que podem ter agravado a crise dos alimentos foi a decisão da Índia e do Vietnã de cortarem as exportações de arroz e a das Filipinas de estocar as importações do produto. Isso fez com que o preço desse artigo dobrasse. Em entrevista ao portal britânico da BBC, Alexander Sarris, oficial da Organização para Agricultura e Alimentação (FAO), disse que ?a alta nos preços do arroz no final do ano passado não resultou de uma queda na oferta. Ela foi devida a acúmulos por uma variedade de países e outros agentes que consumem arroz, que pensaram que não haveria arroz suficiente no mercado?.
Ricos x pobres
A mesma reportagem do site inglês fez uma pesquisa comparativa sobre produtos da cesta básica de grandes cidades de países pobres e ricos. De acordo com a pesquisa, variação é grande. Em Washington e Bruxelas, capitais de países desenvolvidos (EUA e Bélgica), os preços dos alimentos básicos caíram drasticamente, enquanto em países menos desenvolvidos eles subiram.
Os destaques foram para Nairobi (Quênia) e Buenos Aires (Argentina). O aumento dos custos na cidade africana, por exemplo, pode ser causado por mau tempo e manipulação do mercado, que limitaram as safras comercializadas. Enquanto que em Bruxelas, a vantagem para a queda foi o bom clima, competição entre supermercados e baixa nos custos do petróleo, que por sua vez barateou frutas e legumes.
A Agência Estado também noticiou preços 25% maiores na África do que antes da crise dos alimentos. No Sudão, preço é o triplo do que em 2007. Em Gana, por exemplo, o milho ficou 200% mais caro se comparados os meses de junho deste ano com o de 2007. Mas as causas desse aumento nem sempre são um acaso. ?Os governos se intrometeram no mercado de uma maneira que podemos qualificar como desestabilizadora. Em outras palavras, eles compraram demais ou restringiram exportações?, disse Sarris. ?Eu diria que eles criaram um tipo de expectativa de pânico?, completou.
Uma equação desequilibrada
O PMA ainda não especifica em que países ou quanto foi cortado do orçamento destinado aos alimentos, mas o número baixo já preocupa países que seriam beneficiados. Até agora essas nações receberam apenas US$ 1,8 bilhão, enquanto 108 milhões de pessoas deixarão de ser atendidas. Ao mesmo tempo em que os preços dos alimentos aumentaram no último ano, uma em cada seis pessoas precisa de comida com urgência, de acordo com Sheeran. ?Não há nada mais básico do que comida. Se as pessoas não a têm, uma das três coisas acontece: elas se revoltam, elas migram ou elas morrem?, problematizou a secretária.
Reportagem do jornal Folha de S. Paulo apontou outros dois fatores que influenciaram a crise dos alimentos. Um deles é o aumento do preço do petróleo, cujos derivados são usados nos cultivos, em máquinas e fertilizantes, e no transporte dos alimentos. O outro é o desvio de parte da produção agrícola para a de biocombustíveis. Com isso, a oferta de produtos como o milho, que é usado para a produção de álcool nos EUA, ou a cana-de-açúcar, de onde se extrai o álcool no Brasil, diminui ainda mais e seu preço é valorizado.

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