O atual governo do Brasil deseja implantar uma pauta econômica nos moldes da chilena, com menos regulação e impostos, estímulos ao empreendedorismo, crescimento da exportação, políticas para incentivar o livre mercado, a adoção do modelo do sistema de pensões de capitalização individual.

Entretanto, é preciso ficar atento à atual onda de protestos no Chile, espontâneos, sem coordenação e liderança, com convocação pelas redes sociais, causando dezenas de detidos, mortos e incêndios.

No Chile a maioria dos serviços públicos foi privatizada. As universidades e saúde públicas são pagas. Os hospitais públicos são caóticos. Os planos de saúde são caríssimos. Os direitos trabalhistas foram retirados, com jornada de trabalho de 45 horas e férias de 15 dias. Os sindicatos não têm poder de negociação, pois uma empresa pode ter mais de um sindicato. As aposentadorias dos trabalhadores são administradas por empresas privadas. A maioria dos trabalhadores aposenta com menos de 30% de seus rendimentos da ativa. Os salários são baixos e metade da população ganha menos de um salário mínimo. Tem-se alto endividamento, seja dos estudantes para fazerem curso superior, seja de dívidas advindas de caríssimos tratamentos de saúde.

O aumento dos preços das passagens de ônibus e metrô em Santiago foi o estopim para o aparecimento de manifestações, com a convocação de “pulas-catracas” e os protestos alastraram.

No dia 18 deste mês, o governo anunciou Estado de Emergência em Santiago, com restrição dos direitos de manifestação e reuniões.

Nos dias 19 e 20 os protestos expandiram para o resto do país, com saques a supermercados, farmácias e grandes lojas, com repartição dos alimentos entre os presentes nas barricadas.

O governo está sem ação, não sabe a origem das insatisfações e somente tem no momento o poder da repressão policial.

As medidas liberais adotadas no Chile geraram o crescimento econômico, mas, os protestos demonstram que elas não foram acompanhadas por medidas sociais para atender cidadãos não contemplados por ganhos econômicos. Pode-se argumentar, por exemplo, ter aumentado a renda média do chileno, mas, hipoteticamente, em um grupo de 4 pessoas, onde 1 pessoa tem renda de 100 e outros 3 não têm renda, teremos a média de renda igual a 25, quer dizer a média não mostra as desigualdades e sim, pelo contrário, as esconde.

O atual modelo econômico chileno deve ser aperfeiçoado com a incorporação das reivindicações sociais.

Deve-se perguntar se o povo, individualmente, está conseguindo ter acesso à moradia, vestimenta, alimentação, estudo, transporte, saúde, educação, esporte? A resposta a essa questão não se tem pela análise dos indicadores econômicos e sim dos sociais.

O Chile, para solucionar suas convulsões sociais, teria de copiar as políticas sociais do Brasil, como o Bolsa Família, o Sistema Único de Saúde (SUS), os subsídios aos remédios de uso contínuo, as escolas públicas, o financiamento estudantil, o piso mínimo de aposentadoria, etc., pois essas políticas servem para amenizar as dificuldades dos brasileiros mais pobres e poderiam servir de modelo para os chilenos.

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