O segundo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) da pandemia terminou nesse domingo (28), com o menor número de inscritos em Minas Gerais desde 2009.

Em comparação com 2020, as inscrições despencaram 47,8% no Estado, acima da diminuição nacional de 46,2%. Em meio às altas taxas de desemprego e à precariedade do ensino remoto para uma parcela de formandos no ensino médio, especialistas concordam que a queda é mais um sintoma de um problema que o Fórum Econômico Mundial considera uma das maiores ameaças à agenda da economia global no curto prazo: a desilusão da juventude.

Longe de ser interpretada por especialistas em educação e economia como falta de disposição para o trabalho, a desilusão de quem ainda está se inserindo no mercado se ancora em um cenário de poucas oportunidades. Entre 2019 e 2021, a taxa de desocupação de mineiros de 18 a 24 anos subiu de 20,3% para 27,5%, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD Contínua). Cerca de 74 mil pessoas dessa faixa etária passaram a integrar o grupo dos “nem-nem”, sem estudo ou trabalho, com uma taxa que passou de 10,2% para 14,1%. Em todo o Brasil, estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) demonstra que a pandemia atingiu os jovens com mais intensidade.

Negros, mulheres e a população com ensino médio incompleto foram os mais impactados na população em geral e na juventude. O recorte racial se repete no Enem, nacionalmente: a participação de negros no exame deste ano caiu 7 pontos percentuais, enquanto a de brancos subiu 6.

Secretária executiva da organização social Em Movimento e coordenadora do Atlas das Juventudes, Mariana Resegue pondera que a redução de possibilidades profissionais para os jovens ecoa não apenas na geração de renda, mas na deterioração da saúde mental.

“A população perdeu um lastro de garantias desde a década de 2010. Nos últimos anos, tivemos uma queda de 12% no retorno da educação. Ou seja, antigamente, se você fizesse faculdade, mestrado etc., era quase garantido que sua renda iria aumentar. Mas já não existe essa garantia. É uma situação que aconteceu nos últimos anos e foi agravada pela pandemia. O caminho para muitos jovens é o subemprego para garantir a renda, em um ciclo de pobreza”, completa.

Geraldo Leão, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e um dos coordenadores do Observatório da Juventude, destaca que a precariedade do ensino na pandemia, especialmente para estudantes do ensino público, pode ter reflexos na dificuldade em conseguir trabalho, porém não a explica totalmente.

Faltam escolaridade e políticas públicas mais eficientes 

Especialistas consultados pela reportagem concordam que pavimentar um caminho sustentável de trabalho para a juventude passa pelo reforço da educação e políticas públicas. “Hoje, o jovem acaba fazendo qualquer trabalho para sobreviver. Vemos os entregadores por aplicativo. Eles têm uma carga grande de trabalho, salário muito baixo e não têm uma formação no processo”, exemplifica a coordenadora do Atlas das Juventudes, Mariana Resegue.

A ONG Rede Cidadã faz a ponte entre trabalhadores e empresas para contratação de jovens aprendizes, sob a Lei da Aprendizagem, que prevê a contratação de pessoas de 14 a 24 anos por empresas de médio a grande porte. “O que acontece hoje é que, se considerarmos o potencial de contratação e o número real de contratados, temos mais ou menos 50% de cumprimento da lei. Se tivéssemos 20% mais de cumprimento, teríamos 200 mil famílias alcançadas e uma situação melhor”, conclui. 

CRISE PREJUDICA MAIS A JUVENTUDE

Historicamente, a taxa de desocupação dos jovens é maior que a da população em geral, porém a pandemia agravou desigualdades e empurrou ainda mais os menos escolarizados para trabalhos precários, explica a diretora de Estatística e Informações da Fundação João Pinheiro (FJP), Eleonora Cruz Santos. “A economia brasileira não tem nenhum tipo de solidez desde 2015. O país flexibilizou as regras do mercado de trabalho, e isso gerou mais fragilidade para o trabalhador, a precarização. Os jovens são mais vulneráveis ainda, porque quem tem de 18 a 24 é dispensado primeiro em uma crise”, destaca. 

A dificuldade de inserção com qualidade do jovem no mercado de trabalho também repercute na produtividade da economia, lembra a pesquisadora Maria Andréia Lameiras, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Fonte: O Tempo

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