De acordo com a Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), o índice de feminicídios na Bolívia é de dois para cada 100 mil habitantes, o que posiciona o país como líder de crimes contra a mulher na região sul-americana.

O número de homens e de mulheres é praticamente equivalente nesta população de cerca de dez milhões de habitantes, porém o país ainda é bastante machista e patriarcal. A violência à mulher se estende também aos casos de violações e às agressões intrafamiliares.

Só este ano foram registrados mais de 70 feminicídios em todo o país.

O alerta soou quando uma mulher de 75 anos morreu por traumatismo craniano após ser agredida pelo marido. O aumento da crueldade é outro motivo de alarme. Em maio deste ano um homem usou dinamite para matar a esposa. E em junho, um adolescente de 16 anos assassinou a punhaladas e a pedradas a então namorada, de 18 anos. O caso gerou comoção e motivou protestos pedindo o fim do feminicídio na Bolívia.

Campanha eleitoral

No próximo 20 de outubro acontece o primeiro turno das eleições presidenciais. Os candidatos estão em plena campanha e alguns buscam votos defendendo as mulheres. Outros sequer tentam disfarçar o machismo

Presidente boliviano, Evo Morales, participa de uma manifestação para exigir o fim dos feminicídios e da violência contra as mulheres durante um protesto em La Paz, em 9 de agosto de 2019 — Foto: Aizar Raldes / AFP

O presidente Evo Morales, que insiste na quarta reeleição, em julho anunciou que seu governo aprovou um plano para erradicar esse tipo de violência.

Ele quer que o feminicídio seja declarado crime de lesa humanidade e prevê um tratado internacional com esta finalidade. Além disso, o Estado calcula uma porcentagem do orçamento da segurança para combater a agressão à mulher. A meta de Morales é facilitar à vítima o acesso à justiça.

Apesar das críticas à reeleição, Evo vem ganhando no quesito apoio à mulher.

Já Chi Hyun Chung, pastor e candidato pelo Partido Democrata Cristão, afirmou que Paola Barriga, que seria sua vice-presidente, tem uma “psicologia de dona de casa”. Chi também arremeteu contra outra colega de partido, a deputada Norma Pierola, a quem chamou de “delinquente social”.

600 feminicídios

Em 2013 foi ampliado para até 30 anos a pena para os crimes contra a mulher. No entanto, essa mudança na legislação não conseguiu frear esta violência. Desde então mais de 600 mulheres foram assassinadas no país.

A maioria dos feminicídios acontece nas regiões rurais e/ou nas de maior pobreza. Cerca de 20% dos casos de violações são cometidos pelos próprios pais ou pelos padrastos das vítimas.

Nas últimas semanas as mulheres lideraram marchas de protestos em La Paz e em Santa Cruz de la Sierra, as principais cidades bolivianas. Já no departamento de Tarija, que fica na fronteira com a Argentina, foi criado o “botão do pânico”, no qual, através do celular, as mulheres vítimas de violência podem pedir apoio imediato à polícia.

Machismo e misoginia

A Conferência Episcopal da Bolívia (Ceb) criticou a lentidão no avanço das leis e manifestou “profunda preocupação em relação aos casos de violência à mulher”. A Ceb reitera o aumento dos feminicídios, que “semeiam luto em centenas de famílias”. As autoridades episcopais pediram que as instituições trabalhem contra o machismo e à perda do valor sagrado da vida.

As mulheres reforçam o coro dos que pedem mudanças de comportamento. No entanto, ainda existem homens que mantêm o comportamento machista e até mesmo misógino.

Este ano três bolivianos lançaram uma música com conteúdo sexual, violento e pejorativo à mulher. Choveram críticas e pedidos de ação judicial aos autores da canção. Porém, um deles, através das redes sociais, afirmou que essa é uma expressão artística e que caso queiram censurá-lo estariam indo contra sua liberdade de expressão.

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Fonte:

G1