O Brasil, além de ser o país da compra em inúmeras parcelas, vai se consolidando como o lugar onde as pessoas ignoram quanto pagam de juros. Duas a cada três pessoas dos 1.000 entrevistados em 70 municípios brasileiros pelo instituto de pesquisa Ipsos disseram não saber quanto pagam de juros, ou seja, 67% das respostas. As mulheres e os jovens entre 25 a 34 anos são os mais desligados. E 50% das pessoas pesquisadas disseram não conseguir guardar dinheiro para comprar bens de alto valor a vista.
O pesquisador da Fundação Ipead, Wanderley Ramalho, não ficou surpreso com o resultado da pesquisa. Eu canso de falar que juro não é um conceito trivial, juro é cruel porque não é compreendido pela maioria da população. Por isso, tem poder corrosivo grande sobre os salários, afirmou Ramalho. O pesquisador disse que se as pessoas soubessem o que são juros compostos (que incidem sobre o valor financiado, mais o juro acumulado no período) usariam o crediário de maneira seletiva.
Patrícia dos Santos,34, não faz a mínima ideia de quanto paga de juros. Sabe que está enrolada em dívidas com 17 credores que colocaram o nome dela no SPC, mas não sabe quanto deve. Comprei muita coisa a pedido de amigos e da família, contou Patrícia, que ganha R$ 545 de aposentadoria por invalidez. Seduzida pelo consumo, Patrícia também adquiriu um sofá de mais de R$ 1.000. A vendedora disse que seriam parcelas de R$ 80, mas a segunda parcela já foi de R$ 90, contou.
O professor da Fundação Vanzolini, Ricardo Rocha, disse que a pesquisa Ipsos deixa claro um conceito em finanças chamado utilidade. A percepção de que uma coisa é importante não é igual para todas as pessoas, disse. Para materializar o conceito, o professor Ricardo explica que se uma pessoa quer um carro, não adianta dizer que ele vai comprar e pagar o equivalente a três carros. Ele está tão apaixonado por um bem, que se o vendedor falou que são 70 vezes sem juros a pessoa vai acreditar, explicou Ricardo Rocha.
Compra de carro trouxe amargura
Antes, Rondineli Rodrigues dos Santos, 30, fazia como todos os brasileiros: pegava o valor da parcela e se sabia que ela caberia no orçamento, ele comprava. Foi assim com o carro que adquiriu em 2008 para pagar em 60 parcelas de R$ 504 e juros de 3,9%. Eu me arrependi amargamente. Um carro que custava R$ 16 mil foi para mais de R$ 30 mil, contou.
Com uma renda de seis salários mínimos, Rondineli disse que tem 17% da renda comprometida com dívidas e vai continuar financiando compras. A mais recente foi um violão. É difícil fugir do financiamento, contou o gerente de compras.

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