Depois de uma semana de ameaças e enormes dificuldades, os catarinenses Claudinei Batista e Rodolfo de Medeiros conseguiram, enfim, deixar o Equador e chegar ao Peru na segunda-feira (14). Eles tinham chegado ao país justamente no início dos protestos contra o governo de Lenín Moreno, em meio a uma viagem por 14 países nas Américas.

As dificuldades começaram já para entrar no Equador, no dia 7 de outubro. Com pouco combustível e “presos” em um ponto da fronteira, conseguiram chegar à cidade de Nueva Loja apenas de madrugada, e por um caminho no meio do mato, guiados por um morador da região.
A partir daí, a passagem pelo país, que deveria durar apenas três dias, se estendeu por sete, repleta de barreiras, trilhas alternativas de madrugada, pagamento de pedágios, mudanças de rota e dias sem conseguir comprar comida ou ter onde descansar direito.

Primeiras barreiras

No primeiro dia, eles deixaram Nueva Loja e encontraram barreiras. Guiados por um morador, percorreram 40 km pela mata, até que chegaram a um ponto onde uma vala tinha sido feita com uma retroescavadeira. “Perdemos uma manhã inteira e, indo e voltando, andamos 80 quilômetros à toa”, explica Claudinei.

Vala criada com escavadeira não permitia passagem de motos — Foto: Claudinei Batista/Arquivo pessoal


De madrugada, tentaram novamente, mas havia tantos obstáculos, como árvores, pedras e pneus, que precisavam passar pelo acostamento e desviar, levando mais de uma hora para percorrer apenas 12 quilômetros.

Depois disso, encontraram o primeiro grupo armado. Em plena madrugada, homens com lanças, flechas e encapuzados só se acalmaram quando eles contaram que eram brasileiros, explicaram porque estavam ali e mostraram as bandeiras do Brasil em suas motos. Ainda assim, pediram uma colaboração, e só permitiram a passagem depois que cada um dos motoqueiros entregou US$ 5 (cerca de R$ 21).

Pouco depois havia uma nova barreira, com tantos obstáculos que a passagem era impossível. A única opção foi retornar ao hotel em Nueva Loja, onde foram obrigados a passar mais um dia inteiro.

Travessia de canoa e pedágios

Já em seu quarto dia no país, Claudinei e Rodolfo foram avisados por um funcionário do hotel que uma trilha pela mata tinha sido aberta até uma cidade vizinha. O problema é que a sequência envolvia duas pontes bloqueadas e a única forma de passar era através de pequenas canoas.

Parte da travessia teve que ser feita em canoas, porque pontes estavam bloqueadas — Foto: Claudinei Batista/Arquivo pessoal


Esse, segundo Claudinei, foi um dos momentos mais tensos de toda a viagem.
“Nossas roupas são pesadas, e ainda tinha o peso das motos também. E o rio era muito fundo. Se a canoa virasse não ia ter jeito”, admite.

A partir desse trecho, começaram os pedágios, dos quais eles perderam as contas. Claudinei explica que eles passaram por muitos vilarejos pequenos, onde a população indígena era muito pobre, e que ali as famílias bloqueavam as passagens em frente as suas casas e pediam dinheiro para liberar os viajantes.

Através de diálogo e pagamento de pedágio, brasileiros conseguiam atravessar algumas barreiras — Foto: Claudinei Batista/Arquivo pessoal

“Era um pessoal muito carente, uma pobreza fora do comum, e as famílias criavam barreiras. Botavam árvore atravessada e faziam um caminho e cobravam pedágio. Botavam filhos, mulher, família toda com lança na beira da estrada. Se não pagava não passava. Imagina em um quilômetro ter 10 casas, então tinha dez barreiras, com dez pedágios. Às vezes de uma barreira na outra não dava cem metros”, lembra.

Apesar de todas as paradas, nesse dia, quinta-feira, a dupla conseguiu rodar 250 quilômetros, entre Joya de los Sachas e Puerto Napo. Ali, encontraram a primeira barreira em que as pessoas não tinham armas e nem cobravam pedágio, porém não deixavam ninguém passar em hipótese alguma.

“E era no meio do nada, não tinha estrutura nenhuma, então ficamos dois dias praticamente sem comer. Não conseguíamos ir nem voltar. Sorte foi que tinha uma barraca, uma cabaninha que um morador já tinha alugado para outro cara que também estava preso ali. Dividimos em três e passamos a noite ali mesmo”, conta.

Em alguns casos, Claudinei e Rodolfo tiveram que voltar e mudar rota — Foto: Claudinei Batista/Arquivo pessoal


Pneu cortado

Também por sorte, no dia seguinte os manifestantes decidiram liberar uma das barreiras por um intervalo de 30 minutos. Os brasileiros então regressaram um pequeno trecho e alteraram sua rota. O novo percurso incluiu novos bloqueios de difícil negociação, atalhos com guias pagos pelo meio do mato e muitas famílias indígenas cobrando seus pedágios.
E, o pior, muitas pedras. “Tinha pedras demais. Tanto que eu acabei cortando o pneu da moto. Tinha um kit de reparo, mas o corte era meio grande e consumiu todos os reparos que eu tinha”, diz Claudinei. “E pneu novo, só em Quito, onde já estava um caos”.

Pedras no caminho acabaram rasgando pneu da moto de Claudinei — Foto: Claudinei Batista/Arquivo pessoal


Ainda assim, eles continuaram, agora com mais pressa de chegar à capital equatoriana. “Mas a cada 10 quilômetros o reparo saltava, tinha que parar e arrumar de novo”, acrescenta.

Chegando a Tumbaco, na periferia de Quito, a situação não melhorou. Pelo contrário. “Tinha exército na rua, arrastão, as lojas todas fechadas. Parei numa ruazinha e uma senhora disse que iam roubar e quebrar as motos. Mas não tinha mais como andar com o pneu vazio. Foi um pesadelo. Era um cenário de guerra”, conta.

Chegar a um hotel garantiu segurança, especialmente porque nesse dia o governo decretou um toque de recolher às 15 horas. Só que o local não tinha restaurante, e os brasileiros passaram mais um dia sem almoçar ou jantar. Conseguir lugar para comprar um novo pneu então, nem pensar.

Claudinei foi salvo graças a seus contatos com motoclubes. Pela internet, ele se comunicou com amigos que conseguiram localizar um motoqueiro em Quito. Trocando mensagens, descobriu que o equatoriano tinha um pneu usado em casa, a 30 quilômetros de distância. No domingo, às 6 horas da manhã, ele pegou a moto de Rodolfo emprestada e conseguiu buscar a peça de reposição.

Os dois ainda tentaram seguir viagem no domingo de manhã, mas as manifestações e os confrontos ainda estavam acontecendo em Quito e eles voltaram para o hotel, onde viram pela TV, à noite, o anúncio de que o presidente havia cedido às reivindicações e revogado o decreto sobre o aumento dos combustíveis, o que garantia o fim dos protestos.

“Então na segunda-feira, às 6 horas da manhã, saímos do hotel e atravessamos o país diretaço, sem parar para nada, com medo que o caos voltasse”, conta Claudinei.

Rodolfo e Claudinei com suas motos, ainda no Equador — Foto: Claudinei Batista/Arquivo pessoal


Medo e sorte
Já no Peru, um dos últimos países do percurso, Claudinei admite que em alguns momentos ele e Rodolfo sentiram medo de sofrer alguma agressão ou de terem suas motos danificadas ou mesmo roubadas.

“Medo existia, mas ou a gente cedia e ficava no hotel esperando as coisas acalmarem, e a gente não sabia quanto tempo seria – podia ser um dia, dois, uma semana, duas três, quatro… nós não tínhamos certeza de nada…então tínhamos que tentar. Tinha lugares em que eram mais agressivos, outros menos. Mas a bandeira do Brasil nos ajudou muito. Quando viam falavam ‘estrangeiros, estrangeiros, brasileiros’, daí as coisas se acalmavam um pouco”, explica.

Apesar dos problemas, Claudinei destaca a beleza do Equador — Foto: Claudinei Batista/Arquivo pessoal


Além da travessia do rio, ele destaca a chegada a Tumbaco como outro momento de maior apreensão. Segundo ele, no interior, os indígenas estavam mais preocupados com suas reivindicações. “Eles tinham a causa deles, que deve ser justa, não cabe a mim julgar. Mas na cidade podia ter ladrões, marginais mesmo que se infiltram e aí fica perigoso. Nos avisaram sobre isso, falaram que podíamos ser roubados”, justifica.

“Era assustador, mas o medo está dentro de cada um. Eu corro de moto, faço trilha, vivo na adrenalina. Não podia me dar por vencido. Foi daí que nós tiramos coragem”, avalia.

Dupla pensa em voltar ao Equador um dia — Foto: Claudinei Batista/Arquivo pessoal


Apesar de ter feito a dupla gastar mais dinheiro do que o previsto e atrasado em alguns dias o cronograma da viagem – que ainda vai passar por Bolívia, Chile e Argentina, até chegar ao ponto final, em Imbituba, Santa Catarina – o Equador não deixou uma má impressão em Claudinei e Rodolfo.
“Acho que um dia voltaremos para lá. O país é bonito”, diz Claudinei, que lamenta que o local foi o único onde não conseguiram fazer turismo.

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Fonte:

G1