A cada quatro mulheres no mundo, três terão pelo menos um episódio de candidíase na vida. Causada pelo fungo do gênero Cândida, a doença gera coceira intensa na região vulvovaginal e ardência na hora de urinar, entre outros sintomas, e atualmente é tratada com antifúngicos da classe dos “azólicos”, sendo o mais conhecido o fluconazol.

Nos próximos anos, porém, um novo medicamento de origem brasileira estará disponível às mulheres. Pesquisadores das Universidades Estadual Paulista e da Federal de Alfenas, com colegas espanhóis, descobriram um efeito antifúngico importante em uma planta facilmente encontrada nos biomas do Cerrado e Caatinga: a sansão-do-campo.

Foto: Divulgação

Também chamada de sabiá, cebiá ou unha-de-gato, a Mimosa caesalpiniifolia é uma árvore de pequeno porte conhecida dos moradores da região Nordeste pelas propriedades medicinais.

Conforme explica ao jornal Gazeta do Povo,  Marcelo José Dias Silva, pesquisador responsável pelo estudo, a casca da planta já era usada para a cicatrização, enquanto as folhas eram transformadas em chá para a mesma ação.

“Durante o meu mestrado, foi feita uma triagem com vários tipos de bactérias e fungos que essa planta poderia ter uma ação e ela se mostrou mais promissora contra fungos, especificamente duas espécies de Candida, a Candida glabrata e a Candida krusei”, diz Marcelo, que atua no Instituto de Biociências do Campus do Litoral Paulista da UNESP. 

“Embora a espécie mais comumente associada à candidíase seja a Cândida albicans, há mulheres que desenvolvem a infecção com outras espécies.

E há casos ainda em que o fluconazol (medicamento de primeira linha para o tratamento da candidíase) sozinho não resolve, ou a mulher tem candidíases de repetição, ou também o fungo cria resistência a esse remédio.

Para essas situações, a novidade medicamentosa é mais que bem-vinda, conforme Eloisa Scheffer, médica ginecologista do Centro de Especialidades em Saúde da Mulher do hospital Santa Cruz, de Curitiba:

“Ter uma medicação que foi estudada e com boa penetração para as Cândidas não albicans, como a glabrata e a krusei, é interessante. [Em infecções da candidíase] principalmente quando não é a albicans, a gente vê que não tem uma cura completa [com o tratamento disponível hoje]. E em via de regra não se testa [quem vem ao consultório médico] por albicans ou não. Para esses outros casos é importante ter uma carta na manga, que vão complementar o tratamento”, explica a especialista à Gazeta do Povo.

Nova pomada

Embora a novidade seja promissora, a transformação das folhas da planta Mimosa caesalpiniifolia em uma pomada contra a candidíase pode demorar a chegar às farmácias.

“[O estudo] ainda está em uma fase de testes. Fizemos testes preliminares in vitro, e estamos mesclando os compostos, incorporando em uma base, avaliando a ação de toxicidade e os efeitos, se a ação é potencializada ou não. E estamos abertos à indústria, por parcerias. Neste ano termina a verba, e temos que procurar quem queira financiar”, explica o pesquisador.

Silva não pode estimar o tempo que levará para termos o produto no mercado, mas espera que no próximo ano tenha avanços importantes. “[Tempo] vai depender das parcerias. O produto exige vários ensaios, específicos, de toxicidade, que exigem pessoas e equipamentos sofisticados. E isso vai depender também das parcerias. Não posso afirmar quanto tempo, mas espero que o mais rápido possível”, diz.

Candidíase: o que fazer?

Dos sinais mais clássicos da infecção da candidíase, as mulheres devem ficar atentas aos seguintes sintomas, de acordo com a médica ginecologista Eloisa Scheffer:

  • Coceira, prurido, na região vulvovaginal;
  • Ardência;
  • Corrimento que o mais típico se assemelha ao leite coalhado, esbranquiçado e em pedaços pequenos;
  • Inchaço e vermelhidão no local;
  • Mucosa avermelhada;
  • Desconforto quando for urinar e higienizar;
  • Dor na relação sexual;
  • Mucosa com escoriação, arranhaduras – indicativo de que a pele foi coçada.”

“Hoje é recomendado o banho de assento com chá de camomila ou com água gelada que pode aliviar os sintomas. Às vezes acontece no período pré-menstrual, e depois desaparece, porque tem uma alteração do pH vaginal nesse período”, explica Scheffer.

A queixa de candidíase é uma das principais nos consultórios ginecológicos, segundo a especialista, justamente por se tratar de um fungo que está presente no organismo humano naturalmente.

“A Cândida é um fungo autóctone, que ‘mora’ na gente, mas não é capaz de causar infecção. Vários fatores, de genéticos a resposta imunológica, favorecem o desenvolvimento da candidíase. Esses fatores também explicam porque algumas mulheres têm recorrência da doença e outras não, porque em algum momento da vida tem mais. É uma doença de alta prevalência e benigna, embora no período de infecção seja bastante incômoda”, reforça a ginecologista.

Imprimir

Fonte:

Gazeta do Povo