O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) realizou nesta sexta-feira (10), como medida cautelar, o fechamento momentâneo da Cervejaria Backer, fabricante da cerveja Belorizontina, suspeita de ter uma substância que causa uma síndrome ainda desconhecida. Segundo o órgão, também foram determinadas ações de fiscalização para a apreensão dos produtos que ainda se encontram no mercado.

Segundo a Polícia Civil do Estado de Minas Gerais foi identificada a substância “dietilenoglicol” em amostras de cerveja pilsen, marca Belorizontina, lotes L1 1348 e L2 1348.

O ministério infomou que auditores fiscais federais agropecuários prosseguem apurando as circunstâncias em que ocorreram a contaminação a fim de dar pleno esclarecimento à população sobre o ocorrido.

Análises laboratoriais seguem sendo realizadas nas amostras coletadas pela equipe de fiscalização das Superintendências Federais de Agricultura. Além disso, mais de 16 mil litros de cervejas foram apreendidos.

Casos

A força-tarefa da Polícia Civil criada para investigar os pacientes suspeitos de terem contraído uma “doença misteriosa” em Belo Horizonte informou nesta sexta-feira (10) que aumentou para 10 o número de possíveis casos, e uma morte.

A vítima fatal é o bancário Paschoal Demartini Filho, de 55 anos, morador de Ubá, na Zona da Mata. Segundo familiares, ele e um genro ingeriram a Belorizontina no bairro Buritis, região Oeste, no fim de dezembro. Esse genro de 37 anos também está internado com a doença.

Entenda

Nas cervejas da marca Belorizontina, que é da cervejaria Backer, foram encontradas dietilenoglicol – substância anticongelante, de uso muito comum na indústria e altamente tóxica para ser humano.

A Backer informou que continua colaborando com as autoridades, e que tem todo interesse em esclarecer os fatos. Ela também afirmou que a substância dietilenoglicol não faz parte de nenhuma etapa do processo de fabricação de seus produto.

Saiba o que é dietilenoglicol

Segundo a mestre cervejeira Fabiana Arreguy, o dietilenoglicol é uma substância usada para agilizar o resfriamento no processo de produção de cerveja. No entanto, a substância não deveria ter contato com a bebida, uma vez que passa por um cano fora do tanque.

“Quando a cerveja termina o processo de feitura, que é a parte quente, ela vai para o fermentador e precisa passar por resfriamento imediato. Então, existe uma serpentina externa dos tanques, que não passa dentro. Lá passam várias substâncias, álcool com água e o etilenoglicol, que é uma substância anticongelante.”

Isso é usado para resfriar de forma imediata o líquido, mas não tem contato direto com a cerveja. Para que houvesse contato com a bebida, teria que ter um furo, um rasgo no tanque, um vazamento ligando a serpentina ao líquido. Um problema sério do equipamento”, explica Fabiana.

A presidente da Sociedade Mineira de Nefrologia e professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Lílian Pires de Freitas, contou que como a substância não é própria para o consumo, os casos de ingestão de dietilenoglicol são raros e geralmente de forma acidental.

“Quando a substância é ingerida, ela é rapidamente absorvida e se dirige ao fígado para ser processada e se transforma em outros compostos que são altamente nocivos para o organismo. Depois ela começa uma série de lesões progressivas no corpo. A fase inicial são sintomas no trato gastrointestinal, depois passa para a destruição dos rins e por fim alterações neurológicas.”, explica a professora.

Os sintomas são semelhantes aos que as pessoas internadas com a doença misteriosa estão. De acordo com a Secretaria de Estado de Saúde, os pacientes começaram com sintomas gastrointestinais, como náusea, vômito e dor abdominal, associados à insuficiência renal aguda grave de evolução rápida, que progride em 72 horas, seguida de uma ou mais alterações neurológicas, como paralisia facial, borramento visual, amaurose, ou seja, perda de visão, alteração de sensório e paralisia descendente.

Tratamento

Quando se descobre a intoxicação por dietilenoglicol logo no início existe um antídoto que é administrado no hospital para não ocorrer a produção dos compostos tóxicos pelo fígado. “Quanto mais rápido o tratamento acontecer menos vai destruir às células. A recuperação e o tratamento depende da quantidade de produto ingerido e da gravidade da lesão”, conclui a nefrologista.

Uso

Substância anticongelante bastante aplicada em sistemas de refrigeração pelo mundo, o dietilenoglicol não costuma ser usado nas instalações das cervejarias artesanais brasileiras. Além dos riscos de contaminação – mesmo que reduzidos –, o produto tem preço alto se comparado a uma solução de água e álcool etílico – igualmente capaz de manter a cerveja resfriada.

É este o exato ponto defendido tanto por fabricantes quanto pelo presidente da Associação Brasileira de Cervejarias Artesanais (Abracerva), Carlo Lapolli, como forma de deixar os consumidores mais tranquilos.

Nota da cervejaria Backer

“Após entrevista coletiva nesta tarde, a Polícia Civil divulgou laudo informando que a substância dietilenoglicol foi identificada em duas amostras recolhidas da cerveja Belorizontina na casa de clientes, que vieram a desenvolver os sintomas. Vale ressaltar que essa substância não faz parte do processo de produção da cerveja Belorizontina, fabricada pela Cervejaria Backer. 

Por precaução, os lotes em questão – L1 1348 e L2 1348 – citados pela Polícia Civil, e recolhidos na residência dos consumidores citados, serão retirados imediatamente de circulação, caso ainda haja algum remanescente no mercado. A Cervejaria Backer continua à disposição das autoridades para contribuir com a investigação e tem total interesse que as causas sejam apuradas, até a conclusão dos laudos e investigação.”

 

Fonte: O Tempo/ O Imparcial ||
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