Nas últimas semanas muito se falou sobre as torrenciais chuvas ocorridas no Espírito Santo e Minas Gerais, em janeiro e em 10 de fevereiro na cidade de São Paulo. No caso mineiro com maior intensidade sobre a capital (Barreiro) e região metropolitana (Contagem, Betim, Ibirité e outros). Órgãos de previsão meteorológica emitiram alertas a indicar, com acerto, prognósticos de volume, intensidade e local de incidência. Vimos as conseqüências: deslizamento de encostas, inundações, desarranjo nos serviços públicos, riscos de doenças. E o mais doloroso e irreversível: perdas de vidas humanas. Ao fim, é a população desvalida que experimenta perdas materiais e familiares, embora a condição social não seja um salvo conduto para escapar das intempéries.

Discussões técnicas e leigas sobre essas chuvas continuam, resultado do impacto que causaram. Alguns invocam mudanças climáticas como causa; outros, uma conjugação de fatores, como a ineficiência dos governos e as atitudes de risco de moradores. Numa sociedade fortemente marcada por desigualdades é injusto acusar famílias de ocuparem locais de risco. Elas lá estão por falta de opção e não pelo contrário. Do ponto de vista climático é importante lembrar: a irregularidade é a regra, não a exceção. Estamos em pleno verão, período no qual essas variabilidades são exacerbadas. A variabilidade, por si, não explica câmbios climáticos, mas é conseqüência das mudanças em curso. Afinal, as recentes chuvas se inserem num contexto de variabilidades (portanto, naturais) ou foram obra de intervenções humanas no sistema climático e nos ambientes urbanos? A ciência climatológica sustenta que o planeta sob uma condição estufa está a forjar um futuro mais quente e chuvoso. Contudo, esses efeitos termodinâmicos não podem ser generalizados, mas vistos sob variações regionais. No caso das chuvas, os piores impactos parecem estar relacionados às intensidades, mais do que aos totais precipitados.

Nesses momentos é comum que se discuta sobre causas e responsabilidades. É o caso de questionar o papel dos governantes. Todos se isentam, afirmando serem as chuvas imprevisíveis e inéditas. Será? Em Formiga, as chuvas de dezembro e janeiro tiveram comportamento padrão, com tempo de retorno de 10 anos. Tempo de retorno é o intervalo no qual uma chuva é igualada ou superada. Juntamente com a hidrologia, deve ser analisada a adequação das cidades a uma realidade climática que não é mais a de décadas anteriores. Médias históricas de chuvas deixaram de ser parâmetros quase que únicos para obras. Recuperação de rios e tributários, mobilidade urbana, criação de áreas verdes para permeabilidade, investimento em saneamento, são ações que devem levar em conta as variabilidades que, se antes eram impossibilidades, hoje são certezas. Que se abandone as canalizações e desvios dos rios e a pavimentação e impermeabilização das margens.

Questão relevante é a avaliação do volume e intensidade de chuva nos períodos anteriores e durante os eventos. A título de exemplo, sejam as chuvas de dezembro e janeiro, em Belo Horizonte e Formiga, localidades que experimentaram conseqüências distintas. A Figura 1 mostra a chuva total naqueles meses, com comportamentos diferentes. Para Formiga, a chuva (368 mm*) foi 67% inferior à média do período (550 mm). Em BH foi muito alta (951 mm). Não é razoável comparar impactos das chuvas entre os locais, mas pode-se estabelecer relações entre chuvas e condições das superfícies. Isso nos leva a discutir impermeabilização do solo, ocupação do espaço (público e privado) e urbanização.

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Figura 1. Totais de chuva (mm) entre 01/12/2019 e 31/01/2020, em Formiga e Belo Horizonte. Fonte: INMET/MA

Avaliar volumes de chuva ao longo de dois meses é absolutamente necessário. Contudo, importa mais conhecer a intensidade. Como os desastres ocorrem num intervalo de horas ou poucos dias e tem alta correlação com a chuva dos dias anteriores, é necessário analisar a precipitação ocorrida em períodos mais curtos, ao longo de 5, 10 ou 15 dias anteriores àquela mais intensa.
Quando se faz o desmembramento das chuvas de dezembro e janeiro em períodos menores (Figura 2), diferenças aparecem. Tanto em Formiga quanto em BH, as primeiras e segundas quinzenas de dezembro/19 foram dentro do esperado. O mesmo pode ser dito sobre a primeira quinzena de janeiro/20 em Formiga (Figura 3). Para BH, embora o volume precipitado tenha sido expressivo (444 mm), talvez não fosse tão impactante caso o solo absorvesse parte dessa chuva.

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Figura 2. Totais de chuva (mm), nas quinzenas de dezembro/2019, em Formiga e Belo Horizonte. Fonte: INMET/MA

Nesse levantamento foram avaliados também os períodos decendiais (10 dias), pentadais (5 dias) e diários, com resultados semelhantes. Em BH, as chuvas mais intensas foram registradas em 23 de janeiro (algo como 200 mm em menos de 3 horas). Por um dos critérios da Defesa Civil para definir evento extremo (chuvas acima de 40 mm/hora) foi observado que, naqueles meses, esse critério não foi alcançado nenhuma vez em Formiga e o foi por cinco vezes em BH. Para uma chuva dessa magnitude talvez nem uma superfície com boa capacidade de absorção, nem obras de drenagem possam minimizar impactos. Mas poderia ser um indicativo de necessidade de ações. Assim, nos vêm alguns questionamentos: se a atual estrutura urbanística, de drenagem e arborização não foi suficiente para absorver os impactos, qual seria o conjunto de ações e obras para que, antecipadamente, os impactos sejam evitados ou minimizados? Se mudanças urbanísticas e de reordenamento de uso do solo podem levar anos, o que deve ser feito, no curto prazo, para diminuir riscos potenciais? Uma é: o monitoramento permanente das chuvas, especialmente da intensidade, em períodos subdiários.

Por um dos critérios da Defesa Civil para definir evento extremo (chuvas acima de 40 mm/hora) foi observado que, entre janeiro e fevereiro, esse critério não foi alcançado nenhuma vez em Formiga e o foi por cinco vezes em BH. Outra: estabelecer relações entre saturação de água do solo, em função de suas propriedades, e enchentes e deslizamentos. No médio prazo, a despoluição de rios urbanos e a caracterização geotécnica dos bairros, a partir de variáveis em modelos que representem as condições locais. Isso exige dinheiro, planejamento e pessoal qualificado.

As chuvas desse verão dizem mais sobre a imprevidência dos nossos gestores do que sobre questões exclusivamente ambientais. A discussão sobre variabilidades climáticas antecede aquela sobre mudanças climáticas. Os impactos das chuvas escancaram nosso pouco apreço pela prevenção e a insensibilidade dos nossos governantes. Estes inauguram avenidas sem árvores ou canais de drenagem e impermeabilizam vias com asfalto. E pouco se dedicam a saneamento, revitalização de rios e tributários, arborização e cuidados com áreas de risco.

Nossa “memória climática” é volátil: some à medida que o tempo passa. As mortes do desastre de ontem são superadas pelas mortes de hoje. Possivelmente, no verão de 2021 somente aqueles que perderam familiares se lembrarão das chuvas do verão de 2020. Se não temos como evitar esses eventos, resta aprender com suas lições. É necessário cobrar dos agentes públicos mais ações preventivas a desastres (dos prefeitos) e pressionar aqueles que devem cobrar e fiscalizar os prefeitos (os vereadores). A inclemência do tempo e do clima nos leva a isso: hoje discutimos chuvas em excesso. Amanhã, secas! As duas premissas para que saibamos lidar com inevitáveis mudanças no futuro são: a avaliação diagnóstica do presente e o não esquecimento dos acontecimentos do passado.

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Figura 3. Totais de chuva (mm), nas quinzenas de janeiro/2020, em Formiga e Belo Horizonte. Fonte: INMET/MA

  • 1 mm é unidade equivalente ao volume de 1 litro precipitado numa área de 1 m2.

(O autor agradece à economista formiguense Eulália Alvarenga pela revisão e sugestões).

Marco Aurélio de Mello Machado – Formiguense e professor da Universidade Federal do Paraná (marcomello@ufpr.br).

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