“A coisa cheira mal”.  Certamente é isto que dirá minha vovó, sei lá onde, ao saber o resultado do julgamento da liminar que pretendia alcançar Renan. A  bem da verdade lhes confesso, ela já partiu desta para a melhor (ou pior), há algumas décadas. Mas, como me lembro muito bem de sua expressão facial e das palavras que proferiu quando lhe contei que os tanques e carros de combate deixavam o pátio do 12RI em direção a Brasília, isto lá em 1964, a velhinha sussurrou:  “se aquieta meu neto, fica calado porque tudo isto me cheira mal”.  Guardei para sempre o conselho, para mim, uma ordem!

E não sei, ou melhor, até sei o porquê, ontem, me pareceu que no ar que circulou por onde andei o cheiro exalado e trazido pelos ventos vindos lá de Brasília, não era muito diferente daquele de então.  Isto se deu, tão logo todo o mundo tomou conhecimento da forma sórdida e baixa pela qual o nosso STF – guardião da Constituição – dela se valeu (?) quando resolveu varrer para debaixo dos tapetes daquela até então, principal corte desta República, a podridão que resultou na absolvição do atual ocupante da presidência do Senado Federal.

A partir daquela encenação transmitida ao vivo e a cores para todo o mundo (repito), o sentimento dominante foi o de que, de fato, por aqui, na República das Bananas, pariu-se um novo texto constitucional, que vigorou por pouco mais de 24 horas quando um réu, que por sinal figura lá mesmo naquela corte em 12 outros inquéritos, se deu ao luxo de descumprir uma ordem dali mesmo emanada.

Ora, se a segurança jurídica se dá mediante a aplicação de regras e leis a que todo cidadão se sujeita, como entender que um sujeitinho daqueles, ao descumprir a ordem judicial emanada da mais alta corte de Justiça deste país; viesse a ser, exatamente por maioria de seus membros, absolvido, paparicado, defendido. Isso, depois de haver engendrado na semana anterior um duro golpe contra a Lava Jato e o próprio Judiciário,  quando patrocinou o tal projeto que fixa um teto máximo para o funcionalismo, de todos os poderes.

Meu olfato não é mesmo muito aguçado, mas algo me faz pensar que o tal cheiro que hoje me incomoda,  se assemelha a outros que exalam quando grandes conchavos são feitos, normalmente prejudicando o povão e beneficiando as conhecidas e grandes corporações, as tais que abrigam a turma da “zelite”.

É preocupante o precedente perigoso que o STF ousou deixar abrir, visto que, doravante, quaisquer dos grandes escritórios de direito, quando acionados por um cliente contra quem tenha sido emitida uma liminar, não hesitarão em bradar que, uma vez que um senador teve o direito de não cumprir uma ordem de um ministro do Supremo, não vai ser o cliente dele (normalmente rico) que há de cumprir medida liminar imposta por “juizeco” (expressão do Renan noutra feita) de primeira instância.

 

E retornando ao nosso torrão mineiro, conhecedor da lista oficial do secretariado que nos próximos quatro anos, auxiliará os recém-eleitos na direção do destino desta cidade, ao cobrir o evento que balançou “literalmente” os alicerces da Praça Getúlio Vargas, entendi porque ali alguns cidadãos, em meio às especulações sobre o roubo no Santander, também torciam o nariz:  será  que isto se dava,  por culpa do cheiro de pólvora detonada que ainda pairava no ar? Não, respondi a mim mesmo, ao relembrar a principal tônica dos comentários havidos: O mais provável, por incrível que pareça  é que talvez, em razão do passado recente, esta cidade quer mesmo é ter um cheiro próprio. Não o de Piumhi, o de Divinópolis ou…

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