A guerra pela reforma da Previdência está para começar. No mesmo dia em que o presidente Jair Bolsonaro apresentará a proposta de emenda à Constituição (PEC) produzida pela equipe econômica, na quarta-feira (20), movimentos contrários e favoráveis iniciam, em São Paulo, as coordenações para pressionar deputados pelo apoio ou derrubada da matéria. Na Praça da Sé, centrais sindicais liderarão os movimentos de oposição e resistência. Em assembleia nacional conjunta, líderes sindicalistas vão se unir para construir uma alternativa de enfrentamento. Os grupos de suporte ao governo estarão concentrados na sede da Associação Comercial de São Paulo (CACB), na rua Boa Vista. Oito presidentes de entidades ligadas aos setores de comércio e serviços vão definir diretrizes de articulação com os parlamentares.

Empresários e sindicalistas partilham da mesma avaliação, de que o convencimento é a chave para a vitória, por isso, as estratégias de comunicação serão fundamentais. As centrais vão trabalhar com panfletagens e informações nas redes sociais. A disposição dos empresários é semelhante, embora atuarão, também, com publicidades e planos de marketing voltadas a informar toda a cadeia varejista – dos pequenos comércios, como farmácias e padarias, aos grandes grupos.

A estratégia da categoria empresarial varejista é capitaneada pela União Nacional de Entidades do Comércio e Serviços (Unecs), que congrega oito associados nacionais. Cada uma das entidades dispõe de núcleos estaduais. É pela capilaridade das agremiações nos estados que o processo de comunicação será feito, usando recursos próprios e privados oriundos de contribuições de associados de livre adesão.

O bom relacionamento dos empresários com o governo é um trunfo para os aliados da reforma. Na segunda-feira passada, os representantes da Unecs estiveram reunidos com o vice-presidente, Hamilton Mourão. Na sexta, conversaram com o ministro da Economia, Paulo Guedes, que participou de um evento na sede da Sociedade de Agricultura (SNA), no Rio de Janeiro.

A articulação com a equipe econômica e com o vice facilita aos empresários o processo de comunicação, de modo a criar uma diretriz na informação a ser veiculada em todo o país. “A ideia é estabelecer uma unidade de apoio claro, ostensivo e público”, explica o presidente da Unecs, George Pinheiro. Além do diálogo com deputados, os empresários também vão marcar encontros com os 27 governadores.

A estratégia das centrais promete ser mais agressiva. Uma vez mapeados, deputados dispostos a votar a favor pela reforma terão nomes e rostos estampados em outdoors, faixas e cartazes na Esplanada dos Ministérios e na base eleitoral. Os sindicalistas também farão uma comunicação corpo a corpo por meio de audiências públicas em câmaras municipais e nas assembleias legislativas. A ideia é colocar vereadores e deputados estaduais para pressionar prefeitos e governadores e, com isso, ampliar o leque de intimidação aos deputados federais, responsáveis por aprovar ou vetar a reforma da Previdência.

Trata-se, de fato, de uma guerra de comunicação, avalia o presidente da Central dos Sindicatos Brasileiros (CSB), Antonio Neto. “Na reforma trabalhista aprovada, os empresários sentiram que ganha a primeira mentira e perde a primeira verdade. Mas nós não trabalharemos com inverdades. Não podemos simplesmente permitir que dificultem o acesso das pessoas à aposentadoria. Não é assim que se resolve os problemas do país”, pondera.

Atuação

A definição do corpo a corpo com os deputados federais é uma das estratégias que os sindicalistas vão deliberar na assembleia do dia 20. Das nove centrais, cinco são de partidarismo orgânico. Ou seja, cujas direções são majoritariamente compostas por filiados de um mesmo partido. A Central Única dos Trabalhadores (CUT) dialogará com os parlamentares do PT. A Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), com os do PCdoB. E a Intersindical, com os do Psol. A Central Geral dos Trabalhadores do Brasil (CGTB), tradicionalmente ligada ao PPL, que só elegeu um deputado, Uldurico Junior (BA), e a Conlutas, ligada ao PSTU, que não tem representante na Câmara, atuarão como forças auxiliares.

Outras quatro centrais de partidarismo inorgânico, que têm alguns dirigentes eventualmente filiados a partidos políticos, atuarão em mais de duas frentes. A Força Sindical dialogará com parlamentares do DEM, PSDB e Solidariedade. A União Geral dos Trabalhadores (UGT) vai procurar os deputados do PPS, PSD e PTB. A CSB, com os do MDB e PDT. A Nova Central Sindical de Trabalhadores (NCST) auxiliará a Força e a CSB no contato com parlamentares do PSDB e PDT.

O diálogo aberto entre as centrais e todos os deputados dos 12 partidos levaria os sindicalistas a pressionarem 260 parlamentares. O poder de alcance dos empresários não é inferior. O coordenador da Frente Parlamentar Mista em Defesa do Comércio, Serviço e Empreendedorismo, deputado Efraim Filho (DEM-PB), trabalha para montar na nova legislatura uma bancada com o mesmo tamanho da última legislatura, de 250 congressistas.

Na quarta-feira, enquanto os oito presidentes associados da Unecs se reúnem, Efraim receberá para um café da manhã, em Brasília, cerca de 15 vice-presidentes ou coordenadores associados. A reunião tem por objetivo deliberar ações de apoio à reconstrução da frente parlamentar do comércio. A previsão é que, em 19 de março, seja anunciado o lançamento oficial da bancada. “Vamos trabalhar para, com uma comunicação eficaz sobre a reforma, quebrar privilégios e gerar oportunidades de investimento e emprego”, destaca Efraim.

PF no Senado

O corregedor do Senado, senador Roberto Rocha (PSDB-MA), afirmou ontem que pediu apoio da Polícia Federal para apurar eventual fraude na eleição para a presidência da Casa. O pedido foi feito ao ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, e será formalizado nesta segunda-feira (18).

A decisão foi tomada em conjunto com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM), na manhã de ontem. “Decidimos pedir a Polícia Federal que apoiasse a Polícia Federal Legislativa na perícia das imagens de todos os 81 senadores”, disse Rocha, em nota. O corregedor informou que ele e Alcolumbre já conversaram com Moro para acompanhar esse trabalho e “não permitir exploração política”.

“Não queremos espetacularização do caso”, afirmou. Nas gravações do circuito interno de TV da Casa, haveria ao menos seis parlamentares suspeitos de participação no escândalo da 82ª cédula surgida na eleição para presidente do Senado. Na votação que acabou anulada, foram computados 82 votos, mas o Senado tem apenas 81 membros.

 

 

 

IMPRIMIR