Por trás dos mais de 423 mil casos prováveis de dengue já contabilizados em Minas Gerais em 2019, a maioria sem consequências tão graves, se esconde o drama de quem perdeu uma pessoa querida por um mal que poderia ser evitado com um coquetel relativamente simples e amplamente conhecido: mais educação, cidadania e ações concretas, do poder público e dos cidadãos, para evitar a proliferação do Aedes aegypti, mosquito que também transmite a zika e a chikungunya. Apenas neste ano, Minas Gerais já confirmou cerca de 90 mortes pela doença.

Pior: tem outros 137 óbitos em investigação, o que pode levar o estado à epidemia mais mortal da história, se todas as suspeitas forem confirmadas.
Um cenário que enche de tristeza familiares e amigos dos que se foram, vítimas de um mal que não escolhe idade nem classe social. Resta um enorme vazio, que, na avaliação de quem fica, poderia ser evitado.

“É uma sensação de impotência muito grande, uma revolta por ver que, apesar de ela ter 84 anos, poderia viver 94. Hoje as pessoas passam dos 90 com tranquilidade. A sensação que fica é de que não estava na hora”, diz Marise, ao se referir à mãe, Maria Luiza de Oliveira Mansur, vítima da dengue em Betim, cidade da Grande BH que já tem ao menos 13 mortes confirmadas pela doença e é o segundo município com mais óbitos no estado em 2019, perdendo apenas para Uberlândia, que tem 16.

Maria Luiza morreu em 12 de maio, depois de lutar por 22 dias contra as complicações no coração e nos rins desencadeadas pela dengue, até que os órgãos pararam de funcionar. Na casa onde morava com um filho, uma nora, uma neta e onde também conviviam duas cuidadoras, outros três tiveram dengue. Marise também teve a doença, assim como o filho e cerca de 60% dos 22 funcionários de sua empresa.

Agressividade letal

Incredulidade, tristeza e inconformismo são sentimentos que se misturam quando os aposentados Adílson Maciel Bertolino, de 64 anos, e Sônia Mara dos Santos Bertolino, de 61, falam da morte da caçula dos quatro filhos do casal, Eliana Maciel dos Santos Bertolino, de 32, Vítima da dengue em sua forma hemorrágica, segundo médicos que a atenderam, ela faleceu em 16 de junho no Hospital Odilon Behrens, em Belo Horizonte, depois de apenas uma semana desde o início dos sintomas – uma rapidez que chega a assustar os próprios profissionais de saúde. Moradora de Sabará, bem no limite com BH, no Bairro Nova Vista, Eliana era portadora de lúpus, doença marcada pela produção excessiva de anticorpos. Essas células, quando se multiplicam de forma descontrolada, começam a atacar o próprio organismo, causando lesões que podem até levar à morte.

Mas essa situação não teria relação com o quadro da dengue, conforme disseram aos pais médicos que atenderam a jovem. O primeiro choque para Adílson foi quando viu a justificativa para internação nos papéis para a transferência de Eliana, da UPA de Sabará para alguma unidade que tivesse vaga. “Quando eu li risco de morte eu me assustei, mas, ainda assim, pensei que poderia ter jeito de tratar”, afirma.

De Sabará ela foi transferida para o Hospital Odilon Behrens, onde Adílson ouviu da equipe médica que o quadro grave tinha se transformado em gravíssimo. Nessa hora, ele foi informado de que a filha já tinha uma hemorragia complicada, momento de extrema emoção compartilhado com um médico que trabalhou no caso. “Ele chorou comigo, dizendo que, apesar da situação, não ia desistir dela”, conta o pai. “Quando eu a vi ali, no hospital, já tive o pensamento de que humanamente não tinha mais jeito. Não parecia mais a minha filha”, diz Adílson.

Antecedentes

Sônia se lembra de que tanto ela quanto o marido já haviam sofrido com a dengue em outros anos, mas não imaginavam que a doença poderia chegar a esse ponto. “Quando a morte entra em casa é que a gente vê que é uma coisa muito mais séria”, diz ela. O marido destaca a característica mais marcante da filha, que a tornou uma pessoa extremamente querida.

“Ela era muito intensa com as amizades e lutava muito pelas pessoas. Fundou um grupo de portadores de lúpus e escrevia cartas dando incentivo para eles caminharem diante dessa situação”, conta. As cartas, inclusive, viraram um livro que os pais guardam com carinho. O casal avalia que falta mais atitude do poder público para forçar na cabeça das pessoas a necessidade de fazerem sua parte.

Os pais lembram o caso do cigarro, por exemplo, que traz em todas as embalagens imagens de complicações graves provocadas pelo tabagismo. “Por que não se faz a mesma coisa com a dengue? A gente fica se questionando sobre como se chega a essa situação. As pessoas que não passam por isso não têm a dimensão do que é. Minha filha sangrou até a morte. Não se dá valor à vida”, completa Adílson. Sabará não está entre os municípios com mortes já confirmadas pela doença, o que leva a crer que o caso de Eliana está entre os quase 140 óbitos ainda em investigação. Porém, a Secretaria de Estado da Saúde não divulga detalhes sobre os casos em apuração ou a que município pertencem.

Bebê foi transferido, liberado e morreu

A perplexidade e a dor que tomam conta das famílias que perderam parentes para a atual epidemia de dengue consegue ser ainda maior quando a vítima é apenas um bebê. Moradora de São João da Ponte, no Norte de Minas, a família do pequeno Hamilton Manoel Rocha Lopes, de 8 meses, não tinha ideia da gravidade do quadro quando o menino apresentou febre repentina, de causa desconhecida.

No dia seguinte, a criança passou por avaliação médica na própria cidade, que enfrentou um surto da doença neste primeiro semestre. Depois, com suspeita da forma hemorrágica, foi encaminhada para o Hospital Universitário Clemente de Faria, em Montes Claros, cidade-polo da região, onde morreu em 24 de abril, três dias depois do início dos sintomas.

O pai diz que a causa da morte foi dengue hemorrágica. Segundo o contador Hamilton Lopes da Silva, o bebê foi levado ao Hospital Universitário pela mãe, Janaína Kênia Rocha, que é enfermeira. Na noite de 22 abril, relata, a criança foi atendida, mas acabou voltando para casa, pois, na triagem, a equipe médica “não constatou nenhuma gravidade”.

No dia seguinte, o menino foi levado novamente à unidade, onde foi submetido a vários exames. Na noite do mesmo dia, o quadro se agravou e garoto sofreu paradas cardíacas. A equipe médica adotou vários procedimentos, mas não conseguiu impedir a morte, que ocorreu na madrugada do dia 24. “Meu filho era uma criança muito saudável, que recebia todos os cuidados para a vida.

Sempre usamos repelente”, diz Hamilton Lopes da Silva. Embora considere que o pequeno foi vítima de uma “fatalidade”, ele entende que os profissionais da área de saúde precisam ter mais atenção com os pacientes que apresentam quadro suspeito da virose. “As pessoas dos serviços de saúde precisam ser mais humanas. Precisam de uma mobilização imediata para salvar vidas toda vez que atenderem a um caso suspeito do tipo mais grave dessa doença”, afirma. Ele faz ainda um apelo pela conscientização dos cidadãos comuns: “Se as pessoas cuidassem, limpassem seus quintais, sem deixar criar focos do mosquito, poderíamos erradicar a transmissão da doença”, cobrou.

Sobre o caso do bebê, o Hospital Universitário Clemente de Faria informou em nota que a análise de material em laboratório deu “resultado inconclusivo” e que não foram realizados exames mais adequados pela Fundação Ezequiel Dias (Funed) “devido à insuficiência de amostra”.

No entanto, completou: “Embora não confirmado laboratorialmente, acredita-se que o mais provável é que a criança tenha, de fato, apresentado infecção pelo vírus da dengue, baseado no momento epidemiológico”.

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Fonte:

Estado de Minas