A pandemia de Covid-19 não alterou apenas a rotina sanitária, ao impor ao nosso cotidiano o uso da máscara (obrigatório em Belo Horizonte) e os cuidados redobrados com limpeza e higienização. Com a adoção em larga escala do home office, a necessidade de permanecer todo o tempo (ou boa parte dele) em casa, as restrições ao funcionamento do comércio e as incertezas envolvendo o futuro financeiro, mudaram também os hábitos de consumo. Pesquisas feitas pelo Google com base no comportamento dos usuários brasileiros mostram que vários deles tendem a continuar depois da pandemia. Entre os novos hábitos, estão maior uso dos canais digitais, outras prioridades na hora de escolher o que comprar e aposta nos negócios das redondezas.

Um dos indicadores que chamam a atenção é o percentual de pessoas que pretendem manter as compras remotas de supermercado: 51% dos entrevistados. Ainda que a maioria (63%) siga fiel ao hábito de ir às lojas, desenha-se uma tendência de atenção ainda maior das empresas ao meio digital após a pandemia.

Pelo celular

Realidade que passou a fazer parte da rotina da professora universitária Raquel Furtado. Ela e o marido optaram por sair o mínimo possível de casa devido à ameaça do coronavírus e as compras passaram a ser feitas por aplicativos ou mesmo pelo whatsapp, no caso de negócios menores, como o sacolão e o fornecedor de alimentos orgânicos. E não pretendem abrir mão da praticidade mesmo com a melhora da situação de saúde.

“De todo modo é preciso lavar e esterilizar tudo, então pelo menos abro mão do trabalho de pegar o carro e ir ao supermercado. Sei que há sempre a taxa de entrega, mas vale pela comodidade, e alguns aplicativos ainda concedem descontos. Num deles até converso com a vendedora, que me manda fotos das opções e posso escolher o que quero. O volume de cada compra aumentou, assim como o valor, mas é algo lógico considerando que estamos o tempo todo em casa, sem comer ou beber fora. É muito conveniente. Eu não me vejo indo ao supermercado tão cedo”, diz Raquel. 

Ela também aproveitou o período para equipar a casa com utensílios cada vez mais populares nestes tempos de quarentena. “Comprei panela elétrica, Mop (espécie de vassoura), aspirador vertical. De roupa, pijamas, que inclusive encontrei numa loja virtual de fabricantes do Sul, que não têm os produtos aqui em BH”.

Hora propícia para refletir sobre os gastos, diz especialista 

Para a escritora e educadora financeira Adriana Sileto, a pandemia trouxe uma ótima chance de rever os hábitos de consumo. Com a necessidade de ficar em casa, alguns gastos deixaram a rotina mensal, enquanto outros aumentaram. E se tornou possível ter a exata noção do peso de cada item no orçamento, além de sua real importância na vida cotidiana. 

“Muitas pessoas estão tendo que se reinventar diante dos ganhos menores. É um momento bom para se pensar a vida do ponto de vista dos gastos, avaliar o que é importante e o que realmente vale a pena. E questionar até mesmo o consumo desenfreado. Será que vale a pena comprar um monte de coisas que eu não preciso ou é melhor ter uma reserva bancária para esse momento difícil?”, questiona. 

Ela sugere inclusive a busca por informações sobre orientação financeira, o que pode ser encontrado na internet sem dificuldade.

Nesse cenário, a especialista vê, no mundo digital, um importante aliado. “As compras pela internet vieram para ficar. Você consegue pesquisar para descobrir coisas bem mais baratas, avaliar preços e ainda encontra opinião dos outros consumidores sobre o produto, o prazo de entrega. Essas novas formas de consumir vão deixar marcas. Que eu acredito que modifiquem inclusive a cesta de artigos de consumo incluída na Pnad (a pesquisa nacional por amostragem de domicílios do IBGE). Com as aulas remotas, a internet se tornou fundamental mesmo para as classes menos favorecidas e tende a entrar no cálculo”, prossegue.

Queda

A coordenadora de pesquisas do Ipead/UFMG, Thaize Martins, diz que o universo virtual do comércio ainda não é uma realidade plenamente explorada em Belo Horizonte. 

O que, ao lado de outros fatores como as lojas fechadas por um longo período e a diminuição geral da renda ajuda a explicar a queda nas intenções de compras de presentes (e no tíquete médio) para datas como os dias das Mães e dos Pais. Para a celebração deste domingo, o valor médio a ser pago pelo presente (R$ 79,58) foi o mais baixo registrado em cinco anos de acompanhamento.

Ela também acredita que o cenário econômico incerto vá determinar mudanças nos hábitos. “As pessoas estão focando no básico, no necessário. Muita gente não sabe se seguirá tendo seu emprego, sua fonte de renda”.

Matéria do Hoje em Dia

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