Quem há décadas observa o que ocorre, ano após ano, com a fauna e com a vegetação após a constante ocorrência de desvio das águas do chamado Mar de Minas para o atendimento de outras motivações que não são aquelas previstas no projeto inicial, certamente, fica sem entender as razões pelas quais o Operador Nacional do Sistema (ONS) delas se vale rotineiramente.
O lago que inicialmente serviria para armazenar o grande volume d’água necessário para a produção de energia, mesmo em períodos de grande seca, nos últimos anos tem apresentado um volume muito abaixo daquele que o projeto inicial considera ideal.
Isto se dá em razão da falta de chuva? Não! Infelizmente, a resposta que hoje conhecemos está ligada à constatação de que os interesses de outros estados, países, ou sabe-se lá de quem mais, falaram e ainda falam mais alto, garantindo que a jusante da usina, muita gente se valha da nossa água para gerar, além da energia, empregos e renda em muitas outras atividades. Estes sim, podem e têm sabido usufruir dos benefícios que o multiuso das águas propicia. Pousadas, turismo náutico, piscicultura, irrigação e outras atividades como a de transporte de cargas e passageiros por intermédio de hidrovia, assim como abastecimento de água às populações próximas, têm sido a eles garantido o ano inteiro. Enquanto isso, nós aqui nas Minas Gerais, na maioria dos municípios lindeiros, nos contentamos a conviver com a lama fétida que nas margens daquilo que um dia foi lago, facilita a proliferação de mosquitos e de outras espécies indesejáveis e prejudiciais ao ser humano. É prejuízo em cima de prejuízo. Econômico, social, financeiro, ambiental e aqueles ligados à saúde pública.
É claro que hoje, os dirigentes de Furnas, lá na sua sede no Rio de Janeiro, já sabem que a população mineira, ciente das manobras que por muitos anos ficaram por baixo do tapete, acordou, veio à luta e está exigindo deles uma nova postura.
Por que São Paulo e outros estados podem se beneficiar das vantagens econômicas que uma hidrovia oferece, se em contraposição àquela que foi prevista para funcionar no Lago de Furnas, esta sequer saiu do papel? As tais compensações (royalties) propaladas aos quatro cantos deste estado como sendo algo de grande importância e valia, serão mesmo capazes de amenizar/corrigir os nossos prejuízos ou, simplesmente não passam de esmola rotulada de “cala boca” e que, a bem da verdade, durante anos no passado, fez a alegria de muito prefeito?
E o repovoamento do lago (peixamento) que a empresa fazia vez por outra em alguns municípios, teriam mesmo o condão de suprir o grande número de peixes mortos por outras razões que Furnas muito bem as conhece?
Por que nós mineiros temos ainda hoje, de permanecermos calados diante da quebradeira que gera desemprego e empobrece nossas populações, simplesmente porque a seca atingiu o vizinho Paraguai e lá, a soja depende do esvaziamento de Furnas para engordar o caixa deles?
As respostas a perguntas como estas precisam chegar à população com rapidez e clareza, e é por isto, que atualmente inúmeros prefeitos, vereadores, deputados, senadores, secretários e até mesmo, recentemente o vice governador Paulo Brant, hipotecaram publicamente seus apoios à causa.
Também é certo que o governador Zema, inspirado na ação rápida, certeira e eficiente, recentemente relembrada pela imprensa quando trouxe a público o heroico posicionamento do governador Itamar Franco no início dos anos 2000, já sabe que no pós pandemia, o multiuso de nossas águas será a “mola propulsora” para atração de investidores, alavancando através do turismo e de outras atividades, os recursos que resultarão em milhares de empregos e de renda, fortalecendo assim, nossa economia que hoje, também em razão da covid-19, anda mais que combalida.
E, tão importante quanto tudo o acima descrito, é preciso que nossas autoridades, inclusive o Ministério Público, atentem para o crime ambiental que repetidamente Furnas tem cometido quando provoca o esvaziamento repentino do lago.
Nas tantas poças d’água que se formam em razão desta descabida atuação é incalculável a quantidade de alevinos e de peixes menores que morrem em função da diminuição do oxigênio e da variação brusca de temperatura na pouca água que lhes resta.
O jornalista Carlos Lindemberg, esta semana, no Instagram fez uma postagem sob o título: “Paraguai quer roubar as águas de Furnas”. Veja como funciona (…). Por outro lado, a grande imprensa relembra que num trecho da Tietê/Paraná a grana que custearia as obras de derrocamento do leito, as quais deveriam ter sido feitas há anos, ninguém sabe onde foi parar.
Senhor governador, senhores políticos: saibam que, com o advento dos grupos que ultimamente se formaram através da redes sociais, todos com o objetivo de defender o estabelecimento de uma cota mínima, única saída para mitigar, ainda que em parte, os problemas e prejuízos que Furnas nos causou, por vontade própria ou a mando de agências e de outros organismos a que se submete, estão hoje em tais grupos, mal comparando, personagens da nova “Inconfidência Mineira”.
Não mais é hora para enrolação! Que a assembleia mineira aprove logo a PEC 52 – tombando legalmente as águas abaixo da cota 762 e que o governador do Estado e demais autoridades constituídas, façam com que a lei seja respeitada. Multiuso de águas é direito de todos, não só dos escolhidos, estejam eles lá, aonde for!

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