As sociedades são caracterizadas pela produção criativa de mentiras e histórias, muitas sem sentido e absurdas, principalmente quando envolvem políticos e seus apoiadores. Elas encontraram nos meios eletrônicos atuais um modo profícuo de difusão, gerando uma crise epistêmica, na forma de fake news, e chegaram até a influenciar no resultado de pleitos eleitorais, como na vitória de Trump, nos EUA, e de Jair Bolsonaro, no Brasil.
O conceito atual de crise epistêmica, de acordo com a revista Cult (número 244, abril de 2019, p. 47), é: “Epistêmico (ou epistemológico) vem do grego…., o conhecimento certo, seguro, científico, não proveniente de impressões. Epistemologia é a disciplina filosófica que trata do que sabemos e de como se pode decidir se o que sabemos é verdadeiro ou falso, dos fundamentos para a verdade ou falsidade do nosso conhecimento ou das nossas afirmações sobre a realidade. Pois bem, com tanta mentira sendo acreditada e compartilhada, uma conclusão parece bastante razoável: grande parte da nossa sociedade estaria perdendo a capacidade de distinguir o verdadeiro do falso. Ou, o que é ainda mais sério, estaria removendo as referências fundamentais em que nos apoiávamos para fazer tal distinção. Eis a crise epistêmica”.
Junto à crise epistêmica ocorrem a rejeição e ignorância às instituições tradicionais do conhecimento, com ataques a esses organismos, entre os quais os meios científicos, universidades, especialistas, intelectuais, jornalistas, decisões judiciais, etc. Daí chegou-se ao descrédito das falas e informes de políticos e de órgãos governamentais.
Proliferam novos atores a criar seu próprio conjunto de ideias com divulgação pelos meios digitais (redes sociais), notícias (fake news), blogs, etc. e formação de tribos com identidades ideológicas, numa eterna competição entre “Nós e Eles”, onde cada tribo tem seus ideais e crenças.
Nesse contexto, toda tribo tem o seu conhecimento sobre diversos assuntos, sem nenhuma base científica ou em pesquisas, estudos, apoiado apenas suas convicções. Na era digital muitos passaram a poder divulgar suas ideias e vendê-las como verdades máximas do mundo moderno.
É preocupante vermos decisões políticas, legislativas e judiciais, de interesses conflitantes e polêmicos, tentarem atender a pensamento das vozes reinante nos meios digitais, ao invés de se adotar procedimentos firmados de acordo com o interesse público, o conhecimento concreto e as leis. Dessa forma, essas decisões geram incongruências ao atender apenas aos clamores do público atuante no meio digital, com distanciamento do mundo real.
Todas as instituições organizadas têm a necessidade de vencer o desafio de impor os seus critérios de construção e divulgação do conhecimento, para estancar as investidas dos atores digitais. Exemplo de ação exitosa foi a implantação, por diversos veículos de comunicação, no Brasil, no ano de 2018, de procedimentos para o monitoramento das mensagens compartilhadas nas redes sociais e aplicativos, com o objetivo de alertar os leitores sobre conteúdos duvidosos e falsos disseminados. Esse paradigma pode ser utilizado pelas demais entidades para demonstrar a sua contribuição e credibilidade, pois é inegável não podermos viver em sociedade sem elas, como as universidades, faculdades, escolas, centros e institutos de pesquisas, órgãos dos poderes constituídos (Executivo, Legislativo e Judiciário), entre outras, sob pena de termos um retrocesso civilizatório na organização social.

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