Andar a pé por Belo Horizonte tem se tornado uma tarefa cada vez mais complexa. Não pela topografia irregular da cidade, mas principalmente pela falta de gentileza no trânsito, que coloca em risco a vida de muitos caminhantes. No Dia do Pedestre, celebrado hoje, dados do Departamento Estadual de Trânsito (Detran-MG) revelam que pelo menos 1.540 multas foram aplicadas, de janeiro a maio, a motoristas que desrespeitaram o direito de quem transita pela metrópole.

Nas ruas, poucos minutos de observação são suficientes para constatar que, a todo momento, regras básicas de segurança são ignoradas pelos condutores. Mesmo em trechos onde a preferência do pedestre é reforçada com placas, como na esquina da avenida Getúlio Vargas com rua Alagoas, na Savassi, região Centro-Sul, a maioria das pessoas precisa esperar que os carros passem para, só depois, completarem a travessia.

Nos arredores da Praça 7, no hipercentro, os flagrantes de veículos invadindo a faixa de pedestres ou estacionando em frente aos pontos de ônibus são corriqueiros. O local é um dos pontos da capital por onde transitam mais de meio milhão de transeuntes todos os dias.

Para o professor de segurança viária do Departamento de Engenharia de Trânsito do Cefet-MG, Agmar Bento, o problema de Belo Horizonte é semelhante ao de outras grandes metrópoles e está ligado à forma como as cidades foram planejadas.

“É um desenho feito para privilegiar os automóveis em detrimento de quem anda a pé, que precisa passar por trajetos mais longos e perigosos. Sem falar na sinalização, que é quase toda feita para os carros e nunca para quem caminha”, explica.

A mudança de cenário, garante o especialista, não virá no curto prazo e tampouco com alguma receita mágica. “O principal é investir em educação de forma geral. Não se trata de endurecer a legislação, porque ela já é boa, mas a fiscalização pode melhorar”.

Fragilidade

A falta de proteção nas calçadas também é um agravante para que caminhantes se tornem alvo fácil. Membro da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet), Dirceu Alves ressalta que esses locais podem ser facilmente invadidos pelos carros.

“Nos pontos de ônibus, onde há grupos de pessoas, o potencial destrutivo é ainda maior. Além disso, as próprias faixas para travessia são mal iluminadas, o que aumento o risco. Os pedestres estão totalmente desprotegidos”, avalia.

Preferência

Mas a preferência no trânsito para quem anda a pé não é absoluta, afirma o assessor de comunicação do Batalhão de Trânsito da Polícia Militar (BPTran), tenente Marco Antônio Said. Ele destaca que, onde há semáforos, a sinalização é que define quem deve parar ou seguir, sem exceções.

No entanto, garante o militar, nos demais locais a prioridade é do pedestre, o personagem mais frágil no trânsito. “Essa noção é essencial para preservar vidas. A dica é sempre ver e ser visto. Ou seja, atravessar nos pontos sinalizados, enxergando o que está ao redor e permitindo que o motorista também visualize a pessoa”, explica.

Outros públicos

Os pedestres não são os únicos a conviverem com a rotina de desrespeito no trânsito em BH. Públicos prioritários como idosos e cadeirantes, que têm vagas de estacionamento reservadas por lei, frequentemente perdem o espaço para motoristas que ignoram a sinalização.

É o caso da rua Alagoas, na Savassi, um dos locais visitados pelo Hoje em Dia. Lá, a reportagem flagrou veículos descarregando mercadorias nesses espaços. “Trabalho aqui há 27 anos e esse tipo de descaso é comum. Eles só respeitam se tiver um carro da polícia perto”, conta o taxista Antônio Augusto, que aguardava passageiros no ponto de táxi que fica em frente.

A falta de gentileza também gera multas para o condutor que usa o som automotivo em volumes acima do permitido e a passagem de motocicletas em passarelas. Nem mesmos os que circulam pelos poucos trechos com ciclovias da região Centro-Sul da capital conseguem se livrar do desrespeito. Na rua Professor Morais, no Funcionários, veículos estacionam frequentemente nas faixas reservadas para quem pedala.

A poucos metros dali, na esquina das ruas Santa Rita Durão e Getúlio Vargas, a cena se repete. “Em alguns locais é mais seguro andar na calçada com a bicicleta do que na própria ciclovia. Os carros realmente se acham donos da rua”, indigna-se a aposentada Ana Lúcia Aguiar.

 

 

Fonte: Hoje em Dia ||

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