A pergunta está errada: salvar vidas ou salvar a economia? O presidente da República acredita que tem que salvar a economia e voltar à normalidade. É uma opinião da cabeça dele, desprovido de argumentos científicos, médicos, sanitários, filosóficos, astronômicos, Políticos (com P maiúsculo) e até tecnológicos. A única ala que lhe fornece argumentos é a ala astrológica, pseudocientífica, terraplanista.

E o que ele quer foi o que a Itália fez, achou que poderia salvar a economia fazendo isolamento só dos doentes. O que conseguiram? Muita gente morrendo por causa da Covid-19. E a economia parou de qualquer jeito. Perderam a economia e, agora, milhares de cidadãos.

O prefeito de Milão, em 26 de fevereiro, assumira a campanha “Milão não para”, que estimulou os moradores da cidade a continuar as atividades econômicas e sociais, mesmo com a pandemia que, na Lombardia, somava 258 pessoas infectadas, e a Itália tinha 12 mortes. Um mês depois, Milão é a província da Itália que mais sofre, com 32.346 casos e 4.474 óbitos. É uma guerra, ninguém sai do abrigo durante o bombardeio, a diferença é que ninguém enxerga as bombas.

A Covid-19 pode durar até 14 dias sem sintomas, enquanto isso, o infectado está transmitindo. E essa é a situação da maioria. Aquela história da imunidade do gado que o presidente acredita não funciona bem, pois um contaminado na estação de ônibus, por exemplo, contamina diversas pessoas que contaminarão muitos em outras linhas e, em 14 dias, toda uma população pode estar contaminada. Quantos dias seriam suficientes para todas as crianças de uma escola serem contaminadas? Os modelos de outras doenças não parecem ajustar-se à Covid-19.

Ninguém está percebendo que muitos cidadãos que estão morrendo são trabalhadores qualificados. Nesse ponto de vista, a morte de cidadãos não é somente um desastre sanitário, mas econômico. O desarranjo na economia será mais grave do que o avaliado inicialmente. Por isso, salvar vidas é salvar recursos humanos valiosos e é o que importa.

E o Japão? É um exemplo quase impossível de ser seguido pelas grandes nações, imagine pelos brasileiros. Para os japoneses, lavar as mãos, fazer gargarejos com desinfetante e usar máscaras faz parte do cotidiano. Desde fevereiro, desinfetantes para as mãos estão disponíveis nas entradas das empresas. Usar máscaras tornou-se uma obrigação civil. Antes do coronavírus, os japoneses já consumiam 5,5 bilhões de máscaras por ano. Com a nova demanda, passaram a oferecer até filtros de café com instruções para fazer as próprias máscaras.

Podemos imitar o Japão parcialmente. Não parar tudo é importante ou o país colapsará. Em um primeiro momento, tem-se que parar o que não seja essencial. E o ponto nevrálgico do sucesso é o transporte público, como levar, com segurança, o trabalhador até o seu local de trabalho? Bicicletas, motocicletas, carros, vans, ônibus, trens? Qual o protocolo para transportar muitas pessoas e trafegar pelas ruas? Certamente, não é como se vê pela TV, especialmente no Rio de Janeiro. Se resolvermos isso, muitas atividades produtivas poderão voltar.

E o governo federal tem que colocar recursos como fazem os EUA (6,3% do PIB), a Alemanha (12%) e o Reino Unido (17%). O Brasil só dispõe de 2% do PIB. É preciso mais para socorrer os que não poderão trabalhar como os autônomos e os prestadores de serviço. O Brasil precisa de um estadista ou de um presidente que ouça os que saibam o que fazer.

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