O aeroporto internacional de Miami é o ponto de partida para o sonho de milhares de brasileiros que desembarcam nos EUA todos os dias em busca de uma vida melhor para si e suas famílias. A poucos metros dali, literalmente a menos de 10 quadras de distância da pista de aterrissagem, está localizada a academia MMA Masters, segunda parada para um grupo de lutadores brasileiros que sonha chegar ao UFC em breve.

Nos alojamentos da equipe, que já abrigaram Amanda Nunes, atual campeã de duas categorias do UFC, residem atualmente cinco lutadores nascidos no Brasil: Rafael Alves, José Balbino, Ítalo Gonçalves, Otávio “Javali” Lacerda e Magno “Cri Cri” Pereira. Junto aos treinadores César Carneiro e Daniel Valverde, já formam uma família longe de casa. Numa tarde de segunda-feira, após o treino de sparring dos profissionais, os sete se reúnem num churrasco animado.

– Quase todo fim de semana a gente faz o churrasco, e sempre que tem lutas. Mesmo que não ganhe, a gente quer comemorar a vida, o que a gente faz aqui, coisas que a gente ama, e são poucas pessoas no mundo que realmente fazem o que amam, têm prazer, chegam na segunda-feira e falam, “Graças a Deus!” Tem gente que fala, “Ô, graças a Deus, fim de semana”, e o domingo eu já nem gosto, porque não estou aqui com eles. É uma coisa de família mesmo. Não só de treino. A comunicação da gente com os atletas é super legal – diz César Carneiro, mestre de capoeira e um dos treinadores principais da equipe.

Dos atletas, o paraense Rafael Alves, 28, é o que está há mais tempo na MMA Masters. Há dois anos, rompeu com seu empresário anterior, deixou a American Top Team e foi para a equipe de Miami por indicação de Amanda Nunes, que fez suas primeiras lutas no Strikeforce e UFC representando o time de Carneiro e Valverde. Se identificou com a equipe e vive seu melhor momento na carreira, com três vitórias consecutivas.

Nesta sexta-feira, Alves disputa o cinturão interino do peso-leve do Titan FC em Fort Lauderdale. O torneio, realizado na véspera do evento do UFC programado para a mesma cidade, terá a presença de Dana White, presidente do Ultimate, que estará gravando seu reality show “Looking For A Fight”, no qual costuma selecionar lutadores de destaque de ligas menores. O paraense, que já estava cotado para lutar no UFC, tem fé que será o escolhido do chefão.

– O oponente do (Gilbert) Durinho se machucou, e eu achei estranho ele (Durinho) começar a me seguir no Instagram. Acredito que ele estava me seguindo para ver o meu jogo. E aí a gente estava na expectativa de poder assinar com o UFC, mas não foi, Deus não quer desta forma. Acredito que ele quer que eu ganhe o cinturão do Titan e depois assine – afirma Rafael Alves.

O lutador Rafael Alves e o treinador César Carneiro jogam videogame no escritório da MMA Masters (Foto: Adriano Albuquerque)

Ele puxa a fila dos jovens brasileiros que buscam seu espaço ao sol através da MMA Masters. Ítalo Gonçalves, 28, é um peso-meio-médio cearense que foi até Hong Kong atrás de uma oportunidade, mas na Ásia só entrou em “roubadas” e viu o cartel ficar negativo. No final do ano passado, um conterrâneo seu cujas filhas são duas promessas amadoras da equipe fez a conexão para que ele fosse para Miami, onde chegou em janeiro. O resultado já começa a aparecer: em março, Gonçalves venceu sua primeira luta em solo americano por decisão unânime e levou seu aproveitamento de volta a 50%.

– Notória a evolução que eu tive, principalmente na parte em pé e no jogo que eu faço. Como sou um atleta oriundo do jiu-jítsu, sou um cara que gosta de fazer aquele trabalho agarrado, de botar para o chão, mas a gente também precisa treinar o “a mais”, que para mim no caso é a parte da trocação. Minha evolução foi tremenda e a gente teve bastante melhoras nesse quesito. As expectativas para as próximas lutas é sempre melhorar, e quem sabe no futuro a gente possa estar no UFC – conta Ítalo.

Magno “Cri Cri”, 33, é o mais novo integrante da família. Chegou a dois meses, mas já pilota a churrasqueira. O cuiabano já treinou na Team Nogueira do conterrâneo Rafael Feijão e lutou em eventos como Face 2 Face, ACB, Aspera FC e Abu Dhabi Warriors, mas se desiludiu com o caminho através do cenário nacional e da Europa. Com o fim da XGym, onde também fez boa parte dos seus treinos, contactou Daniel Valverde e conseguiu ajeitar o caminho para chegar em Miami.

– Aqui é a terra da oportunidade. No nosso cenário, no nosso país, a gente encontra muita dificuldade. A América é onde tudo acontece. Miami é um Rio de Janeiro melhorado, como sempre falo – compara o peso-pena.

Pode parecer um discurso até batido, mas é a realidade atual no mundo da luta. Muitos lutadores brasileiros têm encontrado sua porta de entrada do UFC através de eventos americanos como o LFA e o Titan, e César Carneiro relata uma conversa com um dos matchmakers do UFC, Sean Shelby, para justificar este fenômeno.

– O Sean Shelby falou com a gente: “Cara, agora a gente está pegando mais gente daqui.” Quando você manda o cartel de alguém, ele já me pergunta, “Ele mora onde?” Acho que é por problema com visto, quando precisa alguém de última hora o cara nunca está à disposição. Acredito que seja isso aí. Quando o cara mora aqui, fica muito mais fácil – explica o treinador.

IMPRIMIR

Fonte:

G1