Represa de Furnas, “o mar de Minas”, que tem um dos piores níveis desde 2011 – ano do racionamento (Foto: Edson Silva/Folhapress)

Paulo Coelho

Inspirados ao ouvirmos marchinhas dos velhos carnavais, dentre essas a tradicional que diz: “as águas vão rolar, garrafa cheia eu não quero ver sobrar”, aproveitamos para assistir um filmete documentário, que foi exibido em todas as salas cinematográficas, lá pelos idos da década de 1950. A peça publicitária/informativo que foi produzida por Jean Manzon da Atlântida Cinematográfica, exibia as corredeiras de Furnas e o locutor oficial, em tom grave e solene informava: “Furnas não é apenas mais uma grande obra do governo. É a eletrificação do Brasil, impedindo a paralisia das forças nascentes da nossa era industrial”.

E mais adiante: “Furnas eleva a potência instalada no Brasil de 3 para 8 milhões de quilowatts, meta de energia elétrica do presidente JK que eliminará de maneira definitiva, um dos pontos graves de estrangulamento da economia nacional: a crise de energia”.

Exibia imagens de toda a bacia do Rio Grande e focalizando em primeiro plano o frenético trabalho de centenas de máquinas e milhares de homens empregados na construção da barragem que àquela época, despontava como sendo a terceira maior do mundo em tamanho e potência.

E o locutor informava e garantia que o crescimento industrial, a mecanização da lavoura, a melhoria das pastagens, o incremento da pecuária e de seus processos produtivos, a utilização da auto-estrada que liga o empreendimento à Belo Horizonte e São Paulo, seriam, em breve, os indutores de benefícios a serem alcançados em razão da entrada em operação do empreendimento.

O documentário também chamava a atenção quando afirmava que o projeto previa ainda, pelo arrojo de sua concepção, que as populações lindeiras aos vales dos rios viveriam a transformação benéfica a ser trazida pela enorme massa d’água, e pelo excepcional afluxo de riqueza que atrairia investidores de todo o mundo, dando aos munícipes de toda a região, vida nova.

Enfatizava ainda sobre a possibilidade de se explorar ali, a navegação fluvial em mais de 500 km ao longo do reservatório.

Estávamos na década de 50, mas, o mineiro e sonhador JK, já antevia o progresso e as inúmeras possibilidades de emprego e renda que seriam ofertados. Valorização das terras, possibilidades de exploração turística, piscicultura, irrigação e tantas outras utilizações da água ali armazenada que, no entender dele, todo aquele esforço e investimento não se resumiria apenas na geração de energia.

E ele tinha razão. Quem conheceu a região antes de Furnas e vê agora o que tudo em seu entorno se transformou ano a ano, realmente fica sem entender, por quais razões, o governo federal, o estadual, as dezenas de prefeitos e por fim toda a população desta região, ainda não se mobilizaram para cobrar de Furnas, da Agência Nacional de Águas (ANA), do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), dos Ministérios de Minas e Energia e do Turismo, e de todas as autoridades, explicações convincentes e capazes de nos mostrar as razões pelas quais, eles se mostram de olhos fechados para tudo o que aqui tem ocorrido nos últimos anos.

É difícil compreender por quais motivos o reservatório é mantido em níveis mínimos.Furnas verte água à vontade à jusante da barragem, pouco se lixando para quem acreditou e investiu na região.

Um olhar mais atento nos demonstrativos publicados pelos órgãos públicos mostra que a vazão defluente é muito superior à afluente e isto se dá, muitas vezes, sem que a geração de energia ocorra em igual proporção.

(Fotos: Arquivo NI)

Parece que as autoridades ainda não entenderam que a indústria sem chaminés, a que explora o turismo em suas diversas facetas é a nossa vocação. Quem quiser que observe com atenção o que prevê o Plano Diretor do Lago de Furnas para a exploração desta e de outras formas econômicas de aproveitamento do lago. Todas indicam que elas podem e muito bem, remunerar investidores e mais que isto, criar emprego e renda em todos os municípios lindeiros.

Por que será que nossos administradores, ao menos até agora, em sua grande maioria calados e passivos, parecem concordar com a mixaria que os municípios recebem a título de royalties, entregando a Furnas 100% de seus recursos hídricos?

Aliás, aquela água que ali deveria estar armazenada é um bem nosso, não só de Furnas!

Já passou da hora de acordamos. Que isto ocorra logo porque, a qualquer momento, o fantasma da privatização pode por aqui se materializar e aí sim, a vaca irá literalmente parar no brejo.

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