No século XIX a China tinha posição econômica mais importante do que a Europa e em 1820 respondia por cerca de 30% do PIB mundial. A partir da Revolução Industrial e com os avanços tecnológicos, a Europa passou a ocupar maior espaço na economia mundial. Em 1949 a China adotou o modelo socialista, detinha somente 5% do PIB mundial e em 1970 iniciou um processo de modernização e produção para o mercado.
Hoje a China é a segunda economia mundial, detém uma população de mais de 1,3 bilhão de pessoas, a industrialização retirou milhões da miséria e a tornou um importante consumidor mundial de produtos manufaturados, de luxo e básicos.
O recente desentendimento referente visita à China, em janeiro de 2019, de diversos novos deputados brasileiros, dos partidos do PSL e do DEM, é um exemplo do paradoxo de nossas relações comerciais com a China. O filósofo, Olavo de Carvalho, autor de diversos livros, entre eles “O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota”, protagonizou ásperas críticas a esses parlamentares.
O Brasil tem feito discurso no sentido da criação de uma frente de países democráticos e capitalistas contra países com tendência socialista, como é o caso da Venezuela, de Cuba e até da China. O problema é o Brasil não ter mecanismos de coerção para ter papel ativo, pois não pertence ao clube dos países com potencial atômico e ser dependente da venda de seus produtos no mercado internacional e da vinda de capitais externos para investir no mercado interno. Até então, o Brasil mantinha posição neutra no palco diplomático.
O presidente Jair Bolsonaro durante discurso no dia 22 de janeiro, na abertura do Fórum Econômico Mundial, em Davos, afirmou que todos os países são dependentes uns dos outros e pretende fazer relações comerciais com os compartilhadores de práticas semelhantes à do Brasil.
Atualmente, a China é o maior parceiro comercial do Brasil, responsável por cerca de 30% das exportações, basicamente matéria prima (minério de ferro e soja) e com eles produzem manufaturados para abastecer o seu mercado interno e exportarem. Além disto, os chineses investem em diversos setores de nossa economia, principalmente no ramo de energia.
O capitalismo atual, assim como o Brasil, vive os reflexos da dependência à máquina de produção chinesa, elaboradora de milhões de bens de consumo de baixo custo, modelo causador do acesso a diversos produtos para consumidores excluídos até então do consumo de diversos bens.
A China atualmente detém a maior reserva mundial de dólares e, por isto, é um grande aplicador em títulos públicos americanos e um importante investidor mundial.
O Brasil é um dos poucos países a ter superávit com a China e, por isto, de imediato, não pode abrir mão desta parceria comercial. Com relação aos Estados Unidos, temos déficit no balanço de pagamentos.
Bolsonaro defende governar sem viés ideológico e pretende fazer um alinhamento incondicional com os Estados Unidos. Uma eventual e impensada ruptura com a China causaria déficits no balanço de pagamentos, desemprego, inviabilizaria diversas empresas exportadoras, afetaria a arrecadação de impostos e retiraria de cena um importante investidor no Brasil.
Os Estados Unidos, no governo de Donald Trump, se insurgiu contra o gigantismo chinês e iniciou uma guerra comercial, com a implantação de barreiras tarifárias, restrições a empresas e investimentos. É uma desglobalização parcial, com empresas à procura de outros fornecedores e o retorno de investimentos para os Estados Unidos, sendo os mais beneficiados o próprio Estados Unidos e a Índia.
Historicamente, a China influiu para os Estados Unidos terem índices inflacionários baixos, pela oferta de produtos de consumo baratos e pela transferência para a China da produção de bens, para aproveitar a mão-de-obra barata.
A China é um país produtor, com um regime não democrático, inserida no capitalismo, o qual é dominado e moldado pela democracia no estilo americano.
Na China não existe democracia, direitos humanos são desrespeitados, não existe separação de poderes, não há liberdades civis (direito de expressão, direito de ir e vir, acesso livre aos meios de comunicação e à internet), etc. Propala este modelo como supostamente mais estável, meritocrático e sem impasses nas decisões, sem oposição e coloca em discussão o modelo democrático.
Alarmou os Estados Unidos o fato da China conceder crédito para obras de infraestrutura, feitas pelos chineses e com materiais produzidos na China, inclusive passou a fazer oferta recente para o Brasil.
A investida dos Estados Unidos contra a China também pretende impor restrições a produtos com alto teor de tecnologia, como chips e componentes, para inviabilizar a sua produção. Também, apareceram acusações de furto de propriedade intelectual por empresas chinesas.
É uma guerra fria econômica, com a finalidade de conter o crescente poderio chinês.
Não adianta ter uma ideologia pró Estados Unidos ou com qualquer outro país, sem a garantia de contrapartidas para atender aos nossos interesses, como, no caso específico, a melhoria de nossas exportações para os Estados Unidos, quebra de barreiras fitossanitárias e tarifárias, aporte de maior volume investimentos diretos no Brasil, transferência de tecnologia, etc.
Levantar bandeiras ideológicas contra certos países pode até ter um alto valor ideológico, mas não pode trazer prejuízos para nossa economia. Por isto, não podemos tomar partido em contendas de grandes potências mundiais e, o ideal, é continuar a manter a nossa posição de neutralidade e tirar vantagem de todas as oportunidades.

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