Alexandro Francisco da Silva, de 40 anos, é vendedor têxtil em Belo Horizonte. Nas horas vagas, porém, é um herói da vida real.

Na tarde desse domingo (16), o homem casado e pais de dois filhos estava ajudando amigos em uma obra no Salgado Filho, na região Oeste, bairro onde vive desde o nascimento, quando soube da queda de um veículo no Arrudas, perto de casa.

Descalço e sem camisa, ele sequer hesitou: conseguiu uma corda, desceu até o automóvel, que pegava fogo e corria risco de explosão, para resgatar o motorista. 

“Pensei que havia uma família lá. Comecei a gritar, apareceu uma corda e desci imediatamente. Só via fogo e não conseguia identificar mais pessoas (lá dentro) nem abrir a porta. Fiquei apavorado, pois a situação estava pior do que imaginava”, contou.

Nesse momento, pediu aos conhecidos que estavam na Teresa Cristina que tentassem conseguir extintores dos veículos que passavam pela avenida. As pessoas foram solidárias e os equipamentos foram jogados até o rio.

“O senhor falava que havia matado a família, mas assim que apaguei o incêndio, juntamente com dois outros homens, vimos que não havia ninguém além dele no carro. Ele estava com a fala desconexa”, disse. Cerca de 10 minutos após a descida, segundo Alexandro, já com o fogo controlado, o Corpo de Bombeiros chegou ao local e finalizou o resgate. A vítima foi levada para uma unidade de saúde.

Herói da vida real
A facilidade para a descida até o rio veio da infância, quando brincava com corda. Ele costumava entrar no curso d’água para pegar bolas que caíam durante as brincadeiras de crianças vizinhas. “Não deixava eles se arriscarem. Eu mesmo buscava a bola. Nosso campinho não tinha tela e a bola sempre caía”, disse. Também da infância veio o interesse em ajudar o próximo.

“Me lembro quando era pequeno. Estávamos eu, minha mãe e meu irmão mais novo, assando batata-doce, à noite, em casa. Antigamente, o Salgado Filho tinha mais chácaras e isso era comum. Meu irmão, que tinha 5 anos na época, estava mais perto da fogueira e, nas brincadeiras, acabou tendo a jaqueta incendiada. Lembro que a minha mãe tirou a blusa dele, de uma só vez, puxando com força. Qualquer mãe faria aquilo, mas aquilo ali ficou marcado na minha vida, a educação que ela nos deu”, afirmou. 

Alexandro ainda não teve contato com a vítima que ajudou a salvar, mas tem interesse em conhecê-lo. Logo após o salvamento, o vendedor compareceu à Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) Oeste para averiguar a saúde após ter tido contato com a água contaminada do rio.

Devido à lotação do local, decidiu ir a um posto de saúde do Salgado Filho nesta segunda-feira (17), quando recebeu orientações e tomou um coquetel composto por três vacinas para prevenir doenças. Do resgate, Alexandro sofreu apenas uma escoriação em um dos dedos, devido à rápida descida com a corda.

“Sempre quando alguém precisa, se eu tiver perto, vou ajudar. Se tratam de vidas. Temos que nos colocar lugar da pessoa. Sempre penso que alguém também vai fazer isso pelos meus filhos”, completou.

Não foi a primeira vez
Em outras duas vezes, o vendedor já havia descido até o Arrudas para realizar salvamentos. No último deles, há dois anos, Alexandro passeava de carro com a família quando avistou uma mulher prestes a tirar a própria vida.

A jovem, que havia passado por um fim de relacionamento, estava com os pés para dentro do rio e se segurava pela estrutura de ferro da construção. “Eu avisei que ela talvez se machucasse, pois iria puxá-la pelo alambrado. Foi uma situação muito difícil”, relatou.

Foto: Elton Lopes/TV Globo

 

Fonte: Hoje em dia||
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