Conviver com o pior de dois mundos – a tarifa alta e a recessão econômica – fez a inadimplência crescer no Brasil e, consequentemente, aumentar o número de cortes de energia nos prazos fixados em lei. Segundo levantamento da Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee), eles cresceram 93,75% no Brasil no primeiro semestre do ano passado frente o mesmo período de 2014, passando de 1,6 milhão para 3,1 milhões.

A situação se agravou a ponto da Abradee solicitar à Aneel um prazo maior para as empresas realizarem os cortes, meio mais eficaz para evitar a inadimplência. “Fizemos o pedido porque as empresas estavam movimentando grandes recursos para conseguir cumprir o prazo de corte, que é de 45 dias de atraso. Seria bom para as empresas e para os consumidores, que teriam mais tempo para acertar a situação, mas a Aneel não aceitou”, diz o presidente da entidade, Nelson Fonseca Leite.

O cabeleireiro Silvio Nogueira, 34, concorda que os prazos de corte de energia são curtos. “Aconteceu comigo porque viajei. Minha funcionária esqueceu. E quando cheguei, a energia já estava cortada. E a burocracia é enorme para ativar”, opina.

Segundo a Abradee, a inadimplência de 30 dias das contas de luz cresceu 17% no Brasil entre 2014 e 2015, mas se forem considerados apenas os usuários das concessionárias, a estimativa do presidente é que o número chegue a mais de 70%. A região Sudeste, de acordo com o mesmo estudo, foi a que mais contribuiu para o avanço nacional dos calotes em números absolutos, crescendo 31% (de 9% para 11,9%). Não por acaso, foi onde as tarifas mais sofreram reajuste, como os 50% de Minas.

Para Leite, uma conjunção de fatores explica esse aumento: a retração econômica, que trouxe o desemprego e a inflação, somou-se à crise hidrológica e o aumento das tarifas que estavam represadas. “A crise hídrica teve início em 2012. Foram três anos com poucas chuvas, térmicas sendo ligadas, mas os aumentos só vieram em 2015”, avalia. Agostinho Pascalicchio, professor de economia e finanças da Universidade Mackenzie (SP), diz que a tentativa do governo de manter o preço da energia elétrica baixo até 2014 “comprometeu o equilíbrio econômico-financeiro das empresas. E esse passivo ainda existe. Mesmo que as bandeiras caiam, as tarifas de energia continuarão altas”.

Segundo Flávio Calife, economista da Boa Vista SCPC (Serviço Central de Proteção ao Crédito), em 2015 a inadimplência mudou. “Até o ano passado, grande parte da inadimplência era de tomada de crédito e compras de produtos. Agora, a inadimplência chegou nas contas do dia a dia, como a de luz”, diz Calife.

Cemig manda para o Serasa

Segundo relatório de resultados do terceiro trimestre do ano passado, divulgado pela Cemig em outubro, a inadimplência da empresa à época estava em 3,43%. O próprio documento, porém, admite a “evolução da inadimplência desde janeiro deste ano, quando passou a vigorar o mecanismo das bandeiras tarifárias e posteriormente o reajuste tarifário extraordinário e ordinário”.

“A taxa média de arrecadação para 2015 se manteve em 95% contra 96% no ano passado”, descreve. O relatório anterior, divulgado em julho de 2015, afirma que “a companhia registrou um aumento médio da inadimplência de 5%” e que isso “tem refletido negativamente no fluxo de caixa da empresa”.

A reportagem buscou junto à Cemig os índices de inadimplência atuais, mas a empresa alegou que a informação é sigilosa. Porém, declarou por nota que “o número de cortes praticados pela Cemig está na média dos últimos anos”.

Já uma pesquisa da Fecomércio-MG, referente a dezembro de 2015, mostra que 16,4% dos entrevistados estavam com a conta de energia elétrica atrasada. Na pesquisa de outubro, esse índice chegou a 31,1%. Para os consumidores, está cada vez mais difícil manter a conta de luz em dia. “Hoje, a gente deixa de garantir alimentação e remédios para dar conta da tarifa de energia”, afirma a pedagoga Elisabeth de Barros, 27. “Acho o valor da conta da Cemig abusivo. Isso acaba aumentando a inadimplência mesmo”, opina o cabeleireiro Silvio Nogueira, 34.

No combate à inadimplência, a Cemig inscreve o nome dos clientes no Serviço de Proteção ao Crédito Serasa e faz o corte de fornecimento.

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