Durante muitas décadas, o brasileiro foi encarado como um povo gentil. A ideia partiu da pesquisa do historiador Sérgio Buarque de Hollanda, que publicou o livro “O Homem Cordial” em 1936. Se fosse escrito hoje, talvez o livro se chamasse “O Homem Intolerante”, pois é essa a característica marcante que um novo dossiê revela sobre o brasileiro.

O documento – do projeto Comunica Que Muda – foi elaborado de abril a junho e analisou o conteúdo de mais de 393 mil posts e comentários na internet. “Queríamos entender como as questões da intolerância estavam sendo abordadas no meio digital”, conta Caio Túlio Costa, um dos coordenadores do estudo. O documento analisou postagens com temas polêmicos, como racismo, política e machismo.

Mais de 84% das menções foram negativas, e o racismo desponta como assunto mais difícil de ser discutido saudavelmente: 97,6% das menções ao tema são negativas. Praticamente empata com política, em que 97,4% dos posts e comentários contêm intolerâncias. “Não esperávamos que as menções negativas fossem ser tão expressivas”, diz Costa.

Perseguições não se limitam à internet

Se a internet é um poço de intolerância, como mostra o dossiê publicado pelo projeto Comunica Que Muda, não é de se surpreender que o “mundo real” não seja muito diferente disso. Segundo dados da ONG Safernet, entre os anos de 2010 e 2013, aumentou em mais de 200% o número de denúncias contra páginas que divulgaram conteúdos discriminatórios contra minorias.

“Está cada vez mais difícil separar o mundo virtual do mundo real. Eles estão constantemente em interação. Assim, manifestações de intolerância que começam na internet podem se estender para fora dela”, afirma a psicóloga Nádia Laguárdia de Lima, professora da UFMG

Foi o que aconteceu com o produtor de conteúdo Átila Moreno, 33. Há cerca de três anos, ele foi expulso de um táxi por conta de sua orientação sexual.

“Meu namorado na época e eu voltávamos de uma festa, à noite, no centro do Rio de Janeiro. Pegamos um táxi. Nos sentamos no banco de trás, e eu passei o braço pelo ombro dele e ficamos conversando ao longo do trajeto. De repente, o taxista parou o carro e nos mandou descer. Ele se virou para nós e disse que não carregava ‘esse tipo de gente’ no carro dele”, lembra.

Os dois foram deixados em uma rua completamente vazia e sem iluminação. A situação é ainda mais preocupante tendo em vista o fato de que 44% dos casos de assassinatos de homossexuais do mundo ocorreram em território brasileiro, segundo levantamento do antropólogo Luiz Mo, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

De acordo com a psicóloga Nádia Laguárdia, manifestações de intolerância como essa devem ser denunciadas às autoridades e instâncias competentes. “No caso No caso de manifestações de racismo, violências, ou perseguições, deve-se denunciar”, orienta.

No caso de Átila e do namorado, eles desceram do carro tão atônitos que nem se lembraram de tomar as providências cabíveis. “Eu fiquei tão chocado com a situação que acabei me esquecendo de anotar a placa e fazer alguma reclamação. Me arrependo muito de não ter denunciado”, lamenta.

Diante de situações como essa, não é exatamente uma surpresa descobrir que o Rio de Janeiro é o Estado mais intolerante do Brasil, de acordo com o dossiê do Comunica que Muda. O Estado teve um total de mais de 58 mil menções negativas nos variados temas. Em segundo lugar, veio São Paulo, com 50,7 mil, seguido por Minas Gerais, com 20,9 mil posts negativos no contexto da pesquisa.

 

Fonte: O Tempo ||http://www.otempo.com.br/interessa/intoler%C3%A2ncia-online-rompe-com-a-ideia-do-brasileiro-cordial-1.1373307

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