Os primeiros levantamentos da investigação das causas do incêndio que matou 10 jogadores das categorias de base do Flamengo e deixou outros três feridos, na madrugada de sexta-feira (8), apontam que o material usado na construção dos contêineres pode ter acelerado a propagação das chamas.

De acordo com reportagem de O Globo, um dos corpos carbonizados apresentava forte odor de solvente, o que pode indicar a presença de material altamente inflamável no alojamento provisório onde os garotos estavam instalados no Ninho do Urubu, o centro de treinamentos do clube carioca na zona oeste do Rio de Janeiro.

Segundo o site da empresa NHJ do Brasil, fabricante das instalações montadas no CT, os módulos habitáveis são compostos por painéis termo-acústicos preenchidos com poliuretano (espuma) revestidos dos dois lados e chapas de aço formando um sanduíche.

O poliuretano é o mesmo material usado na Boate Kiss, cenário do incêndio que deixou 242 mortos e quase 700 feridos em janeiro de 2013. Na tragédia de Santa Maria, o fogo se alastrou em questão de minutos.

Em notas divulgadas nesse domingo (10), o Flamengo e a NHJ do Brasil admitiram o uso do poliuretano, mas argumentaram que o material é auto-extinguível, ou seja, que não é propagador de fogo.

O clube carioca informou que representantes da empresa estiveram na Gávea para participar da reunião do gabinete de crise. A NHJ destacou que é fornecedora do clube desde 2006 e que, desde o incêndio de sexta-feira, a equipe técnica da empresa se colocou à disposição do clube para entender as causas do incêndio.

A empresa afirmou que os contêineres “são fabricados de acordo com os padrões técnicos internacionais” e que obedecem “a todas as exigências técnicas, inclusive de segurança”. E reafirmou que “os módulos são feitos de metal e preenchidos com material antichamas”.

Apesar de o poliuretano ser altamente inflamável, especialistas ouvidos pela TV Globo afirmam que as chapas de aço absorveriam o calor, mas não pegariam fogo. O risco nesse tipo de construção seria o uso de tinta solvente nas paredes. Entrevistado pelo Jornal Nacional, o engenheiro Gerardo Portela diz que o poliuretano não é adequado para o uso em alojamentos:

— Esse tipo de estrutura em sanduíche tem um limite de suportar calor. Enquanto é um princípio de incêndio e as pessoas estão acordadas para reagirem com rapidez, ok, ele ainda pode ser utilizado, no caso de um escritório, por exemplo. Com pessoas dormindo, como projetista eu não especificaria esse material.

A perícia dos Bombeiros apontou preliminarmente que o incêndio começou no aparelho de ar condicionado de um dos dormitórios do alojamento

Dirigente nega que alojamento seja puxadinho

No sábado (09), o Flamengo fez sua primeira manifestação pública para se defender da tragédia. Por cerca de 15 minutos, o CEO Reinaldo Belotti discursou sobre as instalações que incendiaram, classificando-as como “alojamento confortável”.

Segundo o dirigente, que não quis responder perguntas dos jornalistas, o Flamengo “não poupa esforços para dar o melhor” para os seus jogadores. Sem citar nomes, Belotti rebateu a afirmação do comandante-geral do Corpo de Bombeiros do RJ, Roberto Robadey, que na sexta-feira havia chamado o alojamento de “puxadinho”:

— Aquilo não era um puxadinho que a gente escondia (os jogadores da base), ao contrário. Era um alojamento adequado ao que se propunha e que nós mostrávamos com orgulho.

O CEO do Flamengo defendeu o aproveitamento dos contêineres em pelo menos três oportunidades, lembrando que as estruturas são usados desde 2011, quando o CT foi inaugurado. Nada comentou sobre as 31 multas da prefeitura do Rio por falta de documentos necessários para a utilização do local, tampouco sobre o fato de o Flamengo ter informado à administração municipal que havia um estacionamento onde o clube, na verdade, montou o alojamento para os garotos da base.

O executivo também ressaltou que as instalações tinham aprovação de diversos órgãos do Rio:

— Ele (alojamento) foi certificado pelo Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, que nos emitiu certificado de regularidade, e pela Ferj e CBF, que emitiram certificado de clube formador.

Preferiu ignorar a informação de que o Ministério Público abriu uma ação civil pública em 2015 alertando para “as precárias condições dos alojamentos e pedindo a interdição do CT. O representante do clube carioca comentou ainda sobre a ausência de documentação dos Bombeiros e da prefeitura do Rio.

— O CT, suas licenças, seus alvarás, suas multas… Na realidade, isso não tem nada a ver com o acidente que ocorreu. Temos algumas providências a serem tomadas para tornar o CT plenamente legalizado e estamos trabalhando arduamente nisso com o Corpo de Bombeiros — afirmou Belotti, que disse ainda que o Flamengo possui oito certificados de nove exigidos para se ter o alvará.

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Fonte:

GaúchaZH e Folhapress