Mesmo usando máscara e tomando os cuidados necessários, o coordenador de vendas Hugo César de Melo foi infectado pelo coronavírus no fim de abril.

Passou 13 dias intubado e sofreu um Acidente Vascular Cerebral (AVC), que paralisou todo o seu lado esquerdo. Aos 29 anos, ele não luta mais contra o vírus, mas ainda precisa lidar com as sequelas.

“Aqui, na reabilitação, estou reaprendendo a falar, ficar em pé, andar. Não desejo isso para ninguém”, diz Melo, que ainda tem dificuldade para encontrar as palavras ao relatar sua história. 

Assim como Melo, há milhares de jovens enfrentando o desafio de vencer sequelas graves após um longo período de internação.

De acordo com dados da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib), em março os pacientes com menos de 40 anos passaram a ser maioria nas UTIs – reflexo da maior circulação de variantes e da vacinação dos idosos. 

Além dos pacientes mais jovens, o tempo de internação aumentou e hoje chega a uma média de 13 dias – há um ano, eram dez. Por isso, a incidência da Covid vem caindo em muitos municípios, mas a ocupação de leitos permanece alta. 

Por causa da doença e das sequelas, Melo teve de adiar o casamento, até então marcado para 10 de junho, com Kelly Pereira de Oliveira, 30, que o acompanha diariamente.

“Eu gostaria muito de dizer a todos os jovens que tomem cuidado, que não façam aglomeração nem festa clandestina. Isso daqui não é brincadeira”, afirma o coordenador.

Vários fatores explicam por que o tempo de internação tem sido mais longo durante a segunda onda, segundo Jorge Paranhos, presidente da Sociedade Mineira de Terapia Intensiva e médico da Santa Casa de São João del-Rei.

“A população idosa foi vacinada, e os jovens se expõem mais. Além disso, houve surgimento de novas técnicas terapêuticas, hoje sabemos lidar melhor com o paciente internado pelo coronavírus. Os pacientes mais jovens não morrem, mas ficam internados por muito tempo”, diz.

Com o novo perfil do paciente Covid, os hospitais têm um novo problema. Passadas duas semanas de internação em um UTI Covid, se o paciente ainda necessita de terapia intensiva, é transferido para o setor não Covid. “Dessa forma, a ocupação de leitos de UTI geral também está alta”, explica Paranhos. 

Outro fator que contribui para o agravamento dos casos é o fato de os mais jovens demorarem a procurar ajuda. “O jovem tende a não valorizar os sinais da piora. Ele chega mais grave ao pronto-socorro”, afirma João Paulo Silveira, CEO da Domicile Home Care, empresa que tem tido aumento demanda de pacientes mais jovens que precisam de atendimento domiciliar após a internação por Covid-19. 

Emocional também preocupa

Embora o jovem tenha, em teoria, maior capacidade de reabilitação, a realidade tem mostrado que pessoas com menos de 60 anos também passam por sequelas graves, como insuficiência pulmonar, cardíaca ou renal.

“Independentemente da idade, quanto mais tempo uma pessoa fica na UTI, quanto mais tempo precisa de ventilação mecânica, mais difícil para recuperar a musculatura e voltar a respirar de forma independente. Quanto mais tempo deitada, mais difícil é voltar a caminhar”, explica Vinicius Lisboa, diretor clínico do Hospital Paulo de Tarso, especializado em cuidados prolongados pós-UTI.

Entre os sintomas mais comuns do pós-Covid estão fadiga intensa, dor crônica, fraqueza muscular, dificuldade para respirar, alterações de memória e fadiga mental. Em casos mais graves, há comprometimento de órgãos como pulmão, coração, rins, fígado e cérebro, além de problemas vasculares, como tromboses e AVCs. 

Segundo o professor da Faculdade de Medicina da UFMG Arnaldo Santos Leite, no Hospital das Clínicas é visível a mudança no perfil etário dos pacientes. Mesmo sendo mais jovens e saudáveis, eles demandam uma lenta reabilitação, precisando cuidado de diferentes profissionais, como fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais.

Além das sequelas físicas, esses pacientes têm demonstrado fragilidade emocional, segundo o professor.

“Os pacientes apresentam, com muita frequência, sintomas de medo, ansiedade e depressão. Sentem medo de se reinfectar, medo de não conseguir mais trabalhar. E faz parte da recuperação o incentivo ao retorno ao trabalho e às atividades físicas”.

De acordo com a Secretaria Especial do Trabalho, a Covid-19 foi o principal motivo de afastamento pela Previdência Social em 2021 no país, com 13.085 auxílios concedidos. Das 20 doenças mais listadas, 18 são relacionadas à ortopedia. 

Os afastamentos muitas vezes não estão relacionados diretamente ao adoecimento pelo vírus. De acordo com o banco de dados da 3778, empresa que tem entre os seus produtos o gerenciamento de afastados de companhias em diferentes setores da economia, na comparação entre os anos de 2019 e 2020, o número de dias de afastamento por transtornos mentais aumentou 47% para cada mil funcionários.

“Muitas vezes, o paciente pede afastamento porque precisa cuidar de um familiar que está doente ou porque ficou abalado emocionalmente. Isso provoca um grande impacto nas empresas por causa da ausência do funcionário ou porque houve uma redução na produtividade”, explica Érika Abritta, diretora de gestão de afastados e perícias médicas do Grupo 3778.

Fonte: O Tempo

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