A 4ª Vara do Tribunal Regional Federal em Belo Horizonte condenou o empresário e idealizador do Inhotim, sede de um dos maiores acervos de arte contemporânea do Brasil, Bernardo Paz a nove anos e três meses de prisão e a irmã dele, Virgínia Paz, a cinco anos e três meses em regime semiaberto, por lavagem de dinheiro. A defesa já recorreu da decisão.

De acordo com a denúncia do Ministério Público Federal (MPF), entre 2007 e 2008, um fundo chamado Flamingo Investiment Fund, sediado no exterior, repassou US$98,5 milhões para a empresa Horizontes, criada por Bernardo Paz para manter o Inhotim a partir de contribuições de seus outros empreendimentos.

O advogado de Bernardo e Virgínia Paz, Marcelo Leonardo, disse que já recorreu da sentença. “Eles são inocentes e a decisão é injusta. Esperamos que seja revertida no Tribunal Regional Federal em Brasília”, disse ele. Segundo o advogado, as operações financeiras são regulares e envolvem apenas as empresas de mineração e siderurgia das quais Bernardo era sócio, não tendo nenhuma ligação com o Inhotim. Ainda de acordo com o advogado, a condenação de Virgínia é absurda já que ela nunca foi gestora de nenhuma empresa. Os irmãos Paz estão respondendo ao processo em liberdade.

 Esquema

Bernardo Paz (Foto: Reprodução/TV Globo)

O dinheiro, segundo o MPF, foi recebido a título de doações e empréstimos para o instituto, mas logo depois foram repassados “para o pagamento dos mais variados compromissos de empresas de propriedade de Bernardo de Mello Paz, tendo sido constatados diversos saques em espécie nas contas do grupo sem que se pudesse identificar o destino final dos valores”.

 

Até 2010, Bernardo Paz era dono do Grupo Itaminas, um conglomerado que reunia 29 empresas do setor de metalurgia. Ele era controlado pela empresa BNP Participação e Empreendimentos, também de Paz. De acordo com o MPF, o dinheiro era “pulverizado” entre os empreendimentos do réu para dificultar o seu rastreamento.

Segundo a juíza Camila Velano, “ficou claramente constatada existência de enorme confusão patrimonial e contábil entre as diversas empresas do Grupo Itaminas”. Ainda de acordo com a Justiça, ficou demonstrado que “a conta da Horizontes não visava unicamente à manutenção do Instituto Cultural Inhotim, mas também servia de conta intermediária para diversos repasses às empresas do Grupo Itaminas”.

A participação de Virgínia Paz seria na dissimulação dos valores vindos do exterior. Ainda de acordo com a sentença, “não se pode conceber que uma movimentação financeira, a qual chegou a 1.419% acima da renda declarada, tenha passado desapercebidamente pela ré”. De acordo com o MPF, Virgínia efetuava todos os pagamentos relativos ao Inhotim em sua conta pessoal, sabendo que as transações vinham da Horizonte.

Dívidas

Na sentença, a juíza resaltou que Paz teria um comportamento de “não cumprimento de obrigações fiscais e previdenciárias, revelando completo descaso das empresas em relação ao Fisco”. As dívidas da Itaminas com a Fazenda Pública chegam a mais de R$ 600 milhões.

“Tanto Bernardo De Mello Paz, (…) quanto as testemunhas de defesa, por diversas vezes, afirmaram que todos os compromissos das empresas do grupo eram pagos com dinheiro oriundo da BMP Participação, pois evitava-se a utilização de contas correntes em nome próprio das pessoas jurídicas do Grupo, a fim de impedir eventual bloqueio judicial de valores devido ao não pagamento de obrigações fiscais, trabalhistas, etc.”, disse a juíza na sentença.

Naquele período, movimentos irregulares efetuados pela BMP foram detectados pelo Ministério da Fazenda.

 Inhotim

O Inhotim é um dos maiores museus a céu aberto do mundo. Ele ocupa uma área de mais de 100 hectares em Brumadinho, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Jardins botânicos, cinco lagos artificiais e um acervo artístico com 500 peças fazem parte do complexo.

(Foto: Marcelo Coelho)

Pinturas, esculturas, desenhos, fotografias, vídeos e instalações de artistas brasileiros e estrangeiros estão em espaços espalhados em meio à natureza. São 18 galerias dedicadas a obras permanentes, outras quatro para temporárias e diversas espalhadas pelos jardins.

As permanentes foram criadas para abrigar obras de Tunga, Adriana Varejão, Cildo Meireles, Marilá Dardot, Miguel Rio Branco, Hélio Oiticica, Neville D’Almeida, Doris Salcedo, Victor Grippo, Matthew Barney, Rivane Neuenschwander, entre outros. As temporárias – Lago, Fonte, Praça e Mata – têm cerca de mil metros quadrados cada uma.

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Fonte:

G1