Irônico: a intervenção federal no Estado do Rio de Janeiro foi decretada pouco mais de 48 horas depois da proclamação do resultado do desfile das escolas de samba. A campeã e a vice-campeã empolgaram as arquibancadas com enredos de forte crítica social. O outro lado da folia: arrastões pela orla e por bares da zona Sul. Não havia como deixar de lembrar um velho samba de Paulo César Pinheiro e Wilson das Neves: “O dia em que o morro descer e não for Carnaval”. Essa música é de 1996 e, por si, evidencia que o problema da violência no Rio de Janeiro não é de hoje. Há 25 anos, por ocasião da Eco-92, a classe média carioca viu-se aliviada porque as Forças Armadas haviam ocupado as praças e avenidas da Cidade Maravilhosa para garantir a segurança do evento. Finda a festa, a violência e as lamúrias voltaram. O mesmo ocorreu nas Olimpíadas de 2016.
Difícil prever o que virá. As raízes profundas dos problemas do Rio não serão arrancadas. Refiro-me à ausência de perspectivas econômicas de largo espectro e à desigualdade social. Os exércitos do comércio de drogas existem porque não há (especialmente com o declínio da atividade petrolífera) alternativas de ocupações lícitas para grande parte da população. Ademais, vale indagar: que tipo de vida é esse em que consumir droga passa a ser imprescindível para que alguém seja “feliz”? Roubo de cargas, assaltos e furtos diversos não passam de acumulação primitiva para a mercancia de entorpecentes. De quebra, o Estado enfrenta uma crise fiscal que inviabiliza qualquer política pública mitigadora do caos fluminense. E, não bastasse a desigualdade social decorrente de um regime tributário regressivo e da evasão fiscal, castas sociais parasitas se apoderaram dos poderes públicos de forma acintosa e fazem ouvidos moucos aos clamores populares. É bom que se diga: esse diagnóstico vale também para o resto do Brasil!
Há quem anteveja, com a intervenção, o declínio do Comando Vermelho e o crescimento do PCC. Os demais governadores da região Sudeste já se mostram preocupados.
A República Velha e os regimes autoritários (Vargas e a ditadura de 1964) representaram décadas de controle dos Estados pela União, e nem mesmo assim a questão da segurança pública foi resolvida de forma satisfatória. Chegou-se ao ponto, durante o regime militar, de um oficial do Exército, tido como notório torturador, ter se tornado o líder do cartel do jogo do bicho e, por tabela, das escolas de samba!
E, para culminar, um Michel Temer “sobranceiro”, como se a criminalidade organizada não rondasse os Poderes da República, declara, do alto de sua condição de jurista, que tornará sem efeito, por alguns dias, o decreto de intervenção federal, para que o Congresso Nacional possa votar a reforma da Previdência. Um drible na letra da lei que pode ser descrito – “digamos assim” – como uma fraude à Constituição. Do jeito que anda o Brasil, mequetrefes povoam as instituições e se arvoram em constitucionalistas eruditos.
Isso, quem sabe, pode dar samba para o próximo carnaval.

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