A lenta retomada do crescimento econômico do Brasil está tendo repercussões muito graves nos mercados de trabalho e na concentração de renda e de riqueza no país. A economia brasileira não está vivenciando um novo ciclo de expansão econômica, como foi nos anos JK, no período do “milagre econômico” dos anos 70 ou na sequência imediata da estabilização do Plano Real. Nesses ciclos, a economia cresce próximo de 10% ao ano, a taxa de desemprego aberto cai para algo em torno de 5%, e a taxa de investimento supera 20% do PIB. Um contraste com o atual crescimento inferior a 1%, o desemprego de 13% e o investimento em torno de 15% do PIB.
A crise continua a ferir profundamente os grupos no meio e na base da pirâmide social. Há um visível processo de empobrecimento da classe média e, segundo o Banco Mundial, desde 2014, quando se iniciou a recessão econômica, até o final do ano passado, o Brasil acumulou 4,7 milhões de pobres a mais, além de 3 milhões de pessoas extremamente pobres (os miseráveis), também a mais.
Nos mercados de trabalho, tão graves quanto as elevadas taxas de desemprego e subemprego, estão o avanço da informalidade, a ausência de oportunidades compatíveis com a qualificação profissional e a queda no padrão de vida da classe trabalhadora. Joseph Stiglitz, laureado com o Prêmio Nobel de Economia em 2001, afirma que declínios na renda e declínios nos padrões de vida são sempre acompanhados por muitas manifestações sociais: subnutrição, uso de drogas e deterioração da vida familiar, as quais acabam se refletindo na saúde e na expectativa de vida da população.
Na verdade, o Brasil não vive um ciclo de expansão da economia nem um processo de estagnação. Não está com as veias abertas, mas convive com uma fase de homeostase econômica. Nessa etapa, há uma tendência autorreguladora do organismo econômico, que permite manter pelo menos o estado de equilíbrio interno dos principais grupos de interesse com maior vocalidade política. De um lado, os 10% mais ricos, que estão usufruindo, sem trabalho atual e sem risco, de uma das maiores taxas de juros reais do mundo desenvolvido e emergente; do outro lado, os grupos sociais de baixa renda, que sobrevivem por meio das transferências oriundas das políticas sociais compensatórias.
Para manter a homeostasia, o meio interno deve preservar certos valores, sem alterações. No caso da economia brasileira, destacam-se entre esses valores a necessária vitalidade e dinamismo dos mercados financeiros (bancos se financiam no mercado interbancário à taxa básica de juros e emprestam a valores de agiotagem, tudo à sombra do Banco Central) e as políticas compensatórias do governo federal (que distribuem, a cada início de mês, quase 25 milhões de pagamentos referenciados ao salário mínimo, que cresceu 60% acima da inflação desde o início do século XXI).
Sabe-se que, quando o meio interno não está em equilíbrio, seja por mudanças externas, seja por disfunções internas, ocorre uma perturbação da homeostase. Mudanças e disfunções não estão, contudo, fora de nosso horizonte: uma crise política paralisante das expectativas otimistas de empresários e famílias, o avanço do protecionismo da economia de Trump, o agravamento da crise fiscal levando a corte no financiamento das políticas sociais compensatórias etc. Ou seja, mudanças e perturbações capazes de inflexionar e romper a autorregulação do sistema.
Nesse contexto, sobram o desalento e a desconfiança dos jovens quanto a seu futuro no incerto futuro do país. Vêm a sua cabeça as palavras finais da “Elegia 1938”, de Carlos Drummond de Andrade: “Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição, porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan”.

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