Durante as buscas por sua cachorrinha que havia fugido do Hospital Veterinário da UFMG e fevereiro deste ano, na região da Pampulha, Leandro se deparou com dois canis escondidos entre as matas.

A situação da estrutura causou estranhamento, quando ele decidiu verificar: dezenas de cães estavam abrigados no local. Além do mau cheiro, o espaço para os animais era pequeno, sem ventilação e não entrava luz solar por conta das árvores – ao redor do local, ainda havia muita sujeira.

As suspeitas sobre as condições dos animais fizeram Leandro buscar ajuda na ONG BastAdotar para denunciar o problema – ele ainda descobriu que os animais são usados em pesquisas do Instituto de Ciências Biológicas (ICB).

“Eu ainda formulei um e-mail pedindo para averiguar e tomar providência. Ainda pedi acesso aos dados dos animais e o que aconteciam com ele. É um local muito isolado e não há tanta transparência”, criticou. A reportagem do portal O Tempo  teve acesso à resposta dada pela Comissão de Ética no Uso de Animais da Universidade.

Um grupo chegou a ser designado para averiguar as denúncias e, após uma vistoria, constatou que os animais estavam em “bom estado geral de saúde e manifestação de comportamentos sociais”.

Além disso, um dos cachorros que estava com lesões teria sido avaliado pela equipe veterinária da UFMG e o resultado apontou que ele estava “bem nutrido, ativo e capaz de se movimentar livremente”.

“Parece que a comissão de ética fez a averiguação, mas percebi que tem mais interesse de justificar o caso do que resolver e melhorar a situação. O campus é um lugar tão grande que poderia dar uma condição de vida melhor para esses animais”, declarou.

Porém, em maio, a estudante Nina Sartori, 26 anos, também se deparou de surpresa com o canil. “Estava procurando um lar temporário para um cão que eu tinha resgatado na rua. Essa estrutura me assustou um pouco”, revelou.

Assim que chegou perto das telas de proteção, os animais não paravam de latir, conforme Nina. O portão não estava trancado e ela conseguiu entrar no espaço por alguns minutos.

“Na parte externa, tem água parada, lixo orgânico, entulho, e lá dentro há um cheiro inexplicável, é pior que esgoto doméstico. Parece que esses cachorros não saem de lá, a não ser para os testes, e vivem confinados em um espaço pequeno, sem luz solar. São dezenas”, acrescentou.

A estudante alegou ainda que parte das telas estavam rasgadas e, com isso, entrava muito mosquito na estrutura.

“Ainda aconteceu uma situação estranha. A pessoa que cuidava da limpeza trancou o portão de saída e fingiu que não me ouvia gritar. Só consegui sair por conta da ajuda do filho dessa pessoa, que afastou os arames farpados para que pudesse deixar o local. Ele mesmo disse que entendeu o que eu estava fazendo”, pontuou.

Presidente da ONG BastAdotar, Mailce Mendes contou que foi encaminhado na última semana uma carta denúncia à reitoria da UFMG sobre a situação dos cães que participam de testes no ICB e a entidade ainda vai acionar o Ministério Público Federal (MPF). Assim que recebeu a denúncia da Nina, a dirigente também resolveu ir até os canis.

“Gostaríamos que essas experiências não existissem, mas o mínimo que queremos é que a Universidade esclareça porque esses animais estão nessas condições, o que acontece ali, como são tratados. Não nos parece que tenham uma vida”, afirmou.

UFMG diz que canis passam por reformas

Em nota, a UFMG declarou que recebeu a carta-denúncia sobre as instalações e que está apurando a situação. Segundo a Universidade, “todas as atividades envolvendo experimentos com animais, bem como procedimentos necessários e suas instalações, são devidamente cadastradas no Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal”.

A instituição informou ainda que os dois canis do ICB são higienizados diariamente e contam com área de alimentação, espaço protegido para descanso dos animais e solário em todas as baias. “E como se trata de ambiente controlado, o canil é telado, evitando a entrada de insetos e a contaminação dos animais por patógenos, em acordo com o que presume a regulamentação vigente, bem como os padrões éticos e de cuidados com esses animais, fundamentais para o avanço da pesquisa”, enfatizou.

As estruturas ainda recebem adequações técnicas para preservar a integridade dos animais. No segundo canil, cujas imagens do espaço foram enviadas pela UFMG, as obras estão em estágio mais avançado.

A reportagem solicitou acesso às instalações alvo da denúncia, mas a universidade alegou que “para evitar o estresse desses animais, o acesso às instalações é restrito, conforme a legislação e normas técnicas”, além da pandemia do coronavírus ter reduzido a circulação de pessoas no campus Pampulha.

Ocorrências de maus-tratos tiveram alta de 56% na capital

Dados da Guarda Municipal revelaram que em um ano as ocorrências envolvendo maus-tratos de animais tiveram alta de 56% em Belo Horizonte. Conforme o levantamento, foram 39 casos em 2019, contra 61 no ano passado. E só entre janeiro e abril de 2021, já ocorreram 11 registros – cães, gatos e equinos são as principais vítimas. Os casos de abandono também apresentaram crescimento na capital.

Há dois anos, foram 37 ocorrências, contra 61 no ano passado, uma alta de 54%. Nos primeiro meses deste ano, a prefeitura contabilizou outros 15 registros. Os animais são resgatados pelo Centro de Controle de Zoonoses caso seja solicitado pela população.

“Todos os animais que chegam à unidade passam por uma consulta com veterinário. Caso necessário, é iniciado tratamento adequado. Além dessa avaliação, é feita vermifugação, vacina contra a raiva, controle de ectoendoparasitas e, no caso de cães, a coleta de sangue para realização do exame de leishmaniose”, informou em nota.

Em Minas Gerais, balanço da Polícia Civil apontou que a alta foi ainda maior entre 2019 e 2020 – os números saltaram de 364 para 635, um crescimento de 74%. De janeiro a abril deste ano, foram 380 ocorrências, índice superior a tudo o que foi registrado há dois anos.

Fonte: O Tempo

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