A partir de novembro deste ano, o nível dos reservatórios da Região Sudeste/Centro-Oeste, na qual se inclui o Lago de Furnas, vai baixar aproximadamente oito metros da cota máxima. A projeção está no Plano Anual de Operação de Energia (PEN) do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), que prevê o volume útil dos reservatórios não só em 2010, mas também nos anos seguintes, até 2014.
Como o Lago de Furnas é o maior reservatório desta região, é praticamente certo entender que a queda de seu nível de água também ficará nesta faixa. Pelo gráfico do operador, agora em 2010, no final do chamado período seco, a Região Sudeste/Centro-Oeste do sistema elétrico brasileiro ficará com 39% de seu volume útil. De 2010 a 2014, este nível vai oscilar entre 39% e 43%.
Quem mostra e analisa os números é o engenheiro e mestre em recursos hídricos, Eduardo Engel, também presidente da Associação dos Usuários do Lago de Furnas. Segundo ele, este percentual de 39% corresponde aproximadamente à cota 760 metros em relação ao nível do mar, no Lago de Furnas, ou seja, oito metros abaixo da cota máxima, de 768 metros.Para efeito de comparação, em 2009, o volume útil do lago teve como menor percentual 54%.
Foi um ano de crise econômica, em que a produção industrial caiu e, por isso, o consumo de energia elétrica foi menor. Engel explica que o estudo foi feito em julho. ?É uma avaliação do atendimento do mercado com energia elétrica, oferta e demanda. O operador do sistema trabalha com a projeção de crescimento econômico e calcula quanto de energia elétrica será necessário gerar para atender a esta demanda?.
?Além disso, informa, analisa a oferta de energia nos próximos anos, considerando a capacidade existente, a operação das novas hidrelétricas e as demais geradoras, como termo elétricas (carvão, gás, óleo e nuclear), biomassa, eólicas e pequenas centrais hidrelétricas?.
Estas projeções dependem principalmente da disponibilidade hídrica. Em resumo, depende da chuva. Por isso, diz o engenheiro, os técnicos trabalham com vários possíveis cenários climáticos e fazem suas projeções. Este plano é revisado todos os anos, o que pode melhorar ou piorar a situação dos reservatórios em termos de cotas de água. Se chover mais, o nível dos lagos pode aumentar; se não, pode baixar, sempre controlado por este operador do sistema elétrico.
Portanto, se os cálculos de crescimento econômico que apontam para um aumento do Produto Interno Bruto em 6% este ano e 5% de 2011 a 2014 se confirmarem, será necessário gerar mais energia elétrica. Ocorre que a energia mais facilmente gerada e barata é a que vem das hidrelétricas. O termo elétrico apresenta um custo operacional muito alto. Embora o governo federal venha investindo nesta área, o próprio sistema informa em seu plano que a maior parte da energia para sustentar este crescimento continuará vindo da água. Hoje, o Brasil consome 52.230 megawatts por ano.
Em 2014, esta demanda vai subir para 68.542. Engel explica que a capacidade instalada de geração é de 103.588 MWmed, com projeção para 130.274 em 2014, mas ressalta que capacidade de geração não significa que esta energia vai ser efetivamente gerada. ?Por faltar chuva, por exemplo, e com isto a geração ser menor. Por faltar gás para uma termoelétrica e isto vai causar uma geração menor também?, afirma. Por conta do aumento da demanda, diz ele, a decisão do ONS é pelo esvaziamento dos reservatórios de acumulação, como é o caso do Lago de Furnas. Atualmente, as hidrelétricas não possuem represas de acumulação, por causa dos impactos ambientais que geram.
Por isso, mesmo com as novas usinas entrando em funcionamento nos próximos anos, a maior parte da energia elétrica para atender à demanda virá dos reservatórios já existentes, o que significa que o nível deles vai mesmo baixar.
Preocupação
?O que eu acho preocupante é que, neste plano, que tem 93 páginas, não há qualquer menção aos diversos pleitos da região de Furnas para que seja mantida a cota mínima de 762 metros. Não há qualquer menção aos outros usos do reservatório?, afirma o engenheiro.
Ocorre que, se realmente a água do lago baixar a esses níveis projetados, ficarão prejudicados projetos turísticos na região e também de saneamento. Como exemplo, ele cita o sistema de tratamento de esgoto de Alfenas, explicando que os efluentes do esgoto tratado são lançados no lago perto do antigo Náutico Clube, que hoje está na cota 765. ?Se esta cota baixar para 760, veremos uma extensão entre 50 e 100 metros de esgoto escorrendo. Será esgoto tratado, mas ainda assim, esgoto.? Além disso, esse esgoto é lançado na água exatamente para ser diluído nela. Se não houver água, como ficará este efluente?
Quanto à navegação, Engel acredita que, inicialmente, uma cota baixa não atrapalha, pois não há grande movimento de embarcações, mas quando a hidrovia estiver em pleno funcionamento, isto poderá se transformar num problema. Ele também não vê problemas nas áreas de irrigação e pesca, embora demonstre preocupação com a produção pecuária, uma vez que a água estará cada dia mais longe dos rebanhos. Para ele, os usuários dos reservatórios não têm poder de decisão. Basta ver que órgãos têm assento no operador do sistema. Não há qualquer representação regional. Para ele, os usuários dos reservatórios não têm poder de decisão. Basta ver que órgãos têm assento no operador do sistema.
Não há qualquer representação regional. Questionado sobre qual seria a solução, o engenheiro afirma que as lideranças devem se posicionar e perguntar para o ONS como vai ficar esta região. ?Eles vão dizer que, se mantiverem a cota que queremos, terão de acionar as termoelétricas e quem vai pagar a conta serão todos os brasileiros. Tudo bem, mas quem é que vai pagar os prejuízos da nossa região?? A depleção do lago já pode ser notada. As margens estão secas e a água vai se afastando. No dia 21 de julho, a cota estava em 765,85.
Nota-se que o uso de água para geração de energia (de fluência) é bem maior do que a afluência (volume de água que entra no reservatório): 812 metros cúbicos por segundo X 363 metros cúbicos por segundo.

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