Um artigo científico divulgado na última semana aponta que o estuário na foz do Rio Doce em Regência, em Linhares, no Norte do Espírito Santo, ainda está contaminado por rejeito de minério da barragem da Samarco em Fundão, Mariana (MG), que rompeu em novembro de 2015.

O rompimento da barragem da mineradora, controlada pela Vale e BHP Billiton, matou 19 pessoas, destruindo distritos e contaminou o Rio Doce até a foz, no litoral do Espírito Santo.

O estudo da Solos Bentos Rio Doce, que tem parceria com várias universidades do país, incluindo a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), teve início com a chegada da lama de rejeitos na foz do rio. Desde então, amostras de água e pescado são analisadas semestralmente.

A última análise do estudo, publicada na última semana, aponta que o pescado ainda está contaminado por metais pesados. Neles, foram constatados a presença de cádmio, zinco, chumbo e cromo nos músculos e fígados dos peixes.

“Com o rejeito, houve um aumento significativo de metais pesados nessa área. Para ter uma noção, a concentração de cádmio teve aumento de 36.000% comparado a um tempo pretérito a chegada do rejeito no estuário”, explicou o pesquisador da Ufes, Fabrício Ângelo Gabriel.

As amostras dos elementos encontrados nos peixes estavam em quantidades acima do que pode ser consumido por humanos. O pesquisador alertou que a ingestão desse pescado pode trazer prejuízos para a saúde da comunidade local.

“Nós constatamos que vários elementos como arsênio, manganês, mercúrio estavam acima dos permitidos para consumo humano. Ou seja, os peixes estão impróprios e o consumo deles pode trazer sérias consequências para a saúde da população local”, alertou o pesquisador.

A última coleta feita pelos pesquisadores no estuário foi feita em janeiro deste ano. A análise desse material ainda não foi concluída. Por causa da pandemia do novo coronavírus, a coleta que seria feita em agosto desse ano foi adiada.

Por causa da suspensão da pesca, a Associação de Pescadores de Regência tem criado peixes e camarões em tanques.

“É como se tivesse cortado nossas pernas e nossos braços. Se ele tinha uma profissão, essa profissão acabou”, declarou o presidente da Associação de Pescadores de Regência, Leones Carlos.

Depois de 45 anos de profissão, há cinco ele não pesca. O barco que ele usava foi destruído pelo tempo e a produção de peixe da associação não é suficiente para o sustento dos 114 pescadores cadastrados na instituição.

“Aquilo ali não dá para manter uma família. É muito pouco. Dentro da associação, tem 114 pescadores cadastrados. Não dá para sustentar todas essas famílias. A renda dá para 4 ou 5 pessoas, mais que isso não dá. Não tem solução mais. A solução é a Renova arcar com todo o prejuízo que a Samarco deu para os pescadores e para o rio”, lamentou Leones.

Em nota, a Renova disse que faz monitoramentos na foz do Rio Doce e que estão em andamento estudos específicos sobre o pescado.

Ainda segundo a Renova, estudos recentes da fundação apontam progressiva melhora nas condições ambientais na região costeira após o rompimento da barragem.

A fundação também disse que vai repassar R$ 2,4 milhões, pagos em quatro parcelas, para ampliar o atendimento de famílias vulneráveis no serviço de Assistência Social do município.

Matéria do G1

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