Após o caso da bancária Lilian Calixto, de 46 anos, que morreu após um procedimento estético para colocar um implante nos glúteos, outros dois casos semelhantes foram registrados na Delegacia da Barra da Tijuca.

Foto: Reprodução Facebook

A Polícia Civil do Rio de Janeiro está investigando agora o mais recente caso: o de Adriana Ferreira Pinto – que também foi socorrida para o Hospital Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca. Segundo o depoimento do marido, Adriana teria feito um procedimento cirúrgico estético em um consultório de Niterói, Região Metropolitana do Rio, no dia 16 de julho.

Ainda de acordo com familiares, ela passou mal na hora do almoço e também à noite, dizendo que estava com falta de ar. Foi levada para o hospital, mas chegou a unidade já sem vida.

O segundo caso foi o da modelo Mayara Silva dos Santos, de 24 anos. De acordo com testemunhas, ela teria realizado um procedimento na última sexta-feira (20), nos glúteos, e passou mal logo depois. Segundo o depoimento do médico plantonista do Hospital Lourenço Jorge, ela já chegou morta à unidade. O caso também foi registrado na 16ª DP (Barra da Tijuca).

Mayara Silva dos Santos (Foto: Reprodução/ Redes sociais)

A delegacia é a mesma que investigou a morte da bancária Lilian Calixto, no último dia 15. Ela morreu após fazer uma bioplastia nos glúteos na casa do médico Denis Furtado, o Dr. Bumbum.

Denis e a mãe, Maria de Fátima Furtado, foram presos no último dia 19, após quatro dias foragidos. Os dois vão responder por homicídio qualificado e associação criminosa.

Perguntas e respostas sobre a bioplastia

Ainda não há confirmação se o que matou Lilian Calixto foi o PMMA. Laudo do Instituto Médico-Legal mostrou-se inconclusivo, e os peritos pediram mais tempo. Nos dois novos casos, detalhes dos procedimentos estão sendo investigados.

Desde a morte da bancária, médicos e especialistas em aprimoramento estético alertam para os riscos da bioplastia. A seguir, as principais dúvidas:

O que é a bioplastia e o PMMA?

Bioplastia é o nome que se dá para procedimentos realizados com PMMA (polimetilmetacrilato), um tipo de acrílico. Como o PMMA também é chamado de bioplástico, surgiu o nome bioplastia. “É um termo inventado para determinar procedimentos com o chamado bioplástico [o PMMA]”, diz Niveo Steffen, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica em São Paulo.

Apesar de receber o nome de “bioplástico”, o PMMA não é absorvido pelo organismo, diz Steffen. O PMMA é usado na indústria para a produção de canetas, placas, faróis, etc. Nos procedimentos cirúrgicos, são aplicadas microesferas do produto.

“O PMMA não é um produto absorvido pelo organismo. E esse é um grande problema dele”, diz Niveo Steffen, presidente da Sociedade de Cirurgia Plástica.

Como o polimetilmetacrilato é aplicado?

Com anestesia local e a introdução de uma microcânula, uma espécie de agulha, no local em que se quer o preenchimento. É um procedimento simples, mas perigoso pela característica do material.

Segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, por mais simples que seja, qualquer procedimento cirúrgico deve ser feito em ambiente hospitalar, com salas preparadas para qualquer complicação – o que não foi o caso da aplicação pelo Dr. Bumbum, que fez o procedimento em um apartamento na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro.

Quais são os riscos do produto?

Como não é absorvido pelo organismo, o PMMA pode trazer reações inflamatórias. Ele também dificilmente pode ser retirado do corpo. “Dá para tentar retirar uma parte, mas não tudo”, explica Steffen.

Uma vez na corrente sanguínea, o produto pode entupir uma artéria, acarretando em paradas cardíacas, ou acidente vascular cerebral ou embolia pulmonar.

Todas essas situações ocorrem porque o material impede que o sangue, que carrega alimentos e oxigênio chegue ao órgão: no coração, é a parada cardíaca, no pulmão, é a embolia e no cérebro, o AVC.

Quem pode fazer o procedimento?

Para a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, ninguém deveria usar o produto pelas altas complicações que ele pode trazer.

No Sistema Único de Saúde o PMMA é utilizado em procedimentos seguros para o fim de correções de deformações advindas do uso de antirretrovirais em pacientes com HIV/Aids.

A ex-modelo Andressa Urach chegou a injetar a substância, mas teve complicações por causa de outra intervenação com hidrogel. O produto também é aprovado pela Anvisa, mas deve ser usado em situações muito específicas e em pouca quantidade.

O que pode ser usado em vez do PMMA?

Niveo Steffen informa que hoje é mais utilizado o enxerto de gordura para aumentar volume, mais seguro e totalmente compatível com o organismo. Para preenchimento, como é o caso de produtos usados para a correção de rugas, por exemplo, ácido hialurônico e botox são seguros e compatíveis. O próprio silicone médico também pode ser usado e tem maior compatibilidade, informa Niveo Steffen.

O PMMA é regulamentado? O que diz a Anvisa?

A  Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) informa que o PMMA tem registro desde 2004 com validade até 2024. A substância é usada em uma variedade de produtos para a saúde, como dentes artificiais e implantes.

“Sob a forma de microesferas, a técnica é utilizada para correções de pequenas assimetrias. Pode ser utilizada em procedimentos estéticos para corrigir rugas ou restaurar pequenos volumes perdidos pela idade”, diz a agência.

A agência informa também que qualquer uso da substância não prevista em bula é aplicada por conta e risco do médico que a prescreve.

Quanto custa?

Há relatos de que pacientes chegam a pagar R$ 20 mil pelo procedimento. Para a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, além de ser perigoso e não dever ser feito, o preço para o PMMA “nem se justifica por ser um material barato”, diz Niveo Steffen.

Como descobrir se um médico é confiável?

Vale checar se o médico tem registro no Conselho Regional de Medicina na região em que atua. No caso do médico conhecido como “Dr. Bumbum” ele não tinha registro para atuar na cidade do Rio de Janeiro.

A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica também disponibiliza uma consulta em seu site para saber se o profissional é ou não credenciado pela sociedade para realizar uma cirurgia plástica.

O Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (Cremerj) informou que vai investigar as denúncias da morte de Lilian, além de notificar a Polícia Federal sobre o caso.

Segundo Niveo Steffen, a aplicação de produtos estéticos sofre de dois problemas. Um deles é a aplicação por profissionais que não são médicos. “Tem dentista, enfermeiro e biomédico que aplica”, diz. Outra questão é sobre a aplicação por médicos que não têm especialização da área.

Como saber se posso confiar no lugar em que vou fazer o procedimento ?

Um procedimento, mesmo que seja minimamente invasivo, precisa ser feito em um ambiente preparado, um hospital ou um centro cirúrgico com aparelhamento para qualquer problema que precise de atendimento profissional em uma emergência, informa Francesco Mazzarone, diretor do Serviço de Cirurgia Plástica da Santa Casa.

 

 

Fonte: G1 ||

Imprimir

Comentários