Compreender a política é tarefa complexa. Já decifrar os humores da política de Minas Gerais é missão ainda mais difícil. O rico folclore em torno da astúcia dos políticos mineiros, baseado na variedade de nomes das Alterosas que já comandaram a nação, se perpetua no tempo devido ao fato de que ainda há muitos mineiros em evidência na política brasileira.

Por exemplo, a presidência da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados (CCJ) e a vice-presidência dessa mesma Casa legislativa se encontram hoje ocupadas por deputados do PMDB de Minas. Mais do que o status institucional, esses atores têm tido destaque como interlocutores do governo junto a seus pares, prestando serviços essenciais para a sobrevivência política de Michel Temer.

No PSDB, outros dois mineiros também têm sido vitais para o atual governo: Aécio Neves e Bonifácio de Andrada. O primeiro vem sendo um dos mais eficientes defensores de Temer nos bastidores do Senado, algo que lhe valeu a corrosão da popularidade conquistada na campanha de 2014 antes mesmo que fossem divulgados seus pedidos de recursos para os corruptores do frigorífico JBS.

Já Andrada, decano de uma tradição política familiar mais antiga do que o próprio Brasil, se envolveu em áridas disputas no seio do PSDB, chegando mesmo a ser destituído da vaga partidária que ocupava na CCJ: tudo isso para obter o questionável mérito de elaborar o relatório que, contrário às denúncias que pesam sobre Temer, foi aprovado pelo plenário e por mais da metade da bancada de Minas.

Enquanto isso, o ex-presidente Lula circula pelas regiões mais carentes de Minas, recitando o velho mantra de promessas de alívio contra a pobreza extrema. Nesse cruel cortejo, o silêncio é total sobre a série de benefícios fiscais que Lula retirou da área mineira da Sudene, fazendo com que os efeitos positivos desse importante órgão de desenvolvimento econômico beneficiem apenas o Nordeste. Após ceifar empregos industriais no Norte de Minas, evitando ainda que outros tantos venham a surgir, Lula reaparece, ironicamente, prometendo o mínimo para a subsistência. A seu lado, petistas mineiros, como o governador Fernando Pimentel e o deputado Patrus Ananias, testemunham, impassíveis, a exploração eleitoral de uma das mais antigas chagas sociais de Minas; pior ainda para Patrus, nativo de Bocaiuva, um dos principais polos industriais norte-mineiros.

Destacados aliados de Temer e de Lula, os principais nomes da política mineira atual parecem exercer com desenvoltura o poder que conquistaram apenas para benefício das próprias carreiras. Nada disso, entretanto, é novidade: no livro “O Segredo de Minas”, Amilcar Vianna Martins Filho recupera a memória dos primeiros anos do regime republicano no Brasil. Nessa época, a bancada mineira na Câmara dos Deputados tinha a alcunha de “colcha de retalhos”, tamanho seu grau de divisão interna. Diante de tal conflito, Minas ficava tal como a vemos hoje: virtualmente sem representação junto ao governo central. A fragmentação foi superada, ao final do século XIX, a partir de uma série de acordos políticos que visavam partilhar o poder que só poderia ser conquistado a partir da união de todos.

Para a construção dessa plataforma, a folclórica astúcia mineira contou muito. Mas não há dúvida de que também foi necessária certa grandeza pessoal. Em 2017, quando se pode ver astúcia por todos os lados, a grandeza tem sido nula.

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