O uso indiscriminado de antibióticos está na mira da Secretaria de Saúde de Belo Horizonte (SMSA). Dados do Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade (ICTQ) apontam que oito a cada dez brasileiros admitem se automedicar. Para conscientizar as pessoas sobre o risco desse hábito, a Vigilância Sanitária intensificou a fiscalização em drogarias e farmácias de manipulação da capital.

Durante as ações, que devem durar até dezembro, agentes visitarão os estabelecimentos para alertar a população sobre os perigos de ingerir esses medicamentos por conta própria. Além disso, irão verificar as condições de armazenamento das substâncias. 

 De acordo com Andrea Belloni, gerente de Produtos de Interesse da Saúde, da Vigilância Sanitária, os farmacêuticos também irão responder a um questionário. “Dentre os objetivos está entendermos, por exemplo, como chegam os receituários e se eles estão prescritos de maneira certa”.

Dosagem incorreta, falta de data ou dia errado e prescrição conjunta a outro medicamento, prática proibida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), são dificuldades reportadas durante a venda.

“O antimicrobiano não pode ser indicado com outro remédio de controle especial, mas isso acontece muito, principalmente nos receituários pós-cirúrgicos. Por exemplo, se na mesma receita vem a indicação de amoxicilina (antibiótico) e tylex, que é para dor, só podemos dispensar o último e o paciente tem que voltar ao médico”, explica Letícia Souza, supervisora farmacêutica de uma rede de drogaria da metrópole.

 Resistência

A preocupação com o uso inadequado de antibióticos tem causado maior resistência das bactérias no organismo. O problema é provocado tanto por conta de doses em excesso quanto insuficientes.

Andrea Belloni ressalta que, geralmente, um paciente para de tomar o remédio ao melhorar, uns três dias após iniciado o tratamento. “Isso é tão errado quanto achar que já se conhece a doença e pode repetir aquele usado anteriormente. Mas nem sempre a bactéria é a mesma, e o que serviu para um parente também não é garantido que será bom para você”, alerta.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil está entre os países com maiores índices de doses de antibióticos do mundo, superando Europa, Canadá e Japão. A principal preocupação é que o consumo favoreça o surgimento de bactérias multirresistentes causadoras de infecções difíceis de curar.

Nesse sentido, a Associação Panamericana de Infectologia lançou uma campanha nas redes sociais para conscientizar pacientes sobre a utilização correta de medicamentos. Também visando reduzir o consumo inadequado, a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) divulgou manual com orientações práticas para autoridades, gestores e profissionais de saúde.

 Abusos potencializados

Tão comum em muitas casas brasileiras, a famosa “farmacinha” reúne remédios para febre, dor, gripe e até “restos” de substâncias controladas. Ao primeiro sinal de um resfriado, por exemplo, é comum o doente recorrer à caixinha guardada no armário ou no banheiro da residência.

“Imediatismo e acesso à internet levam a esse comportamento. A pessoa faz uma busca dos sintomas e fecha o próprio diagnóstico on-line, sem procurar um profissional capacitado”, diz Raphael Espósito, farmacêutico do Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade (ICTQ).

A prática, no entanto, pode mascarar patologias mais graves, alerta Raphael Espósito. Segundo ele, como a dor ou a febre melhoram ao ingerir os fármacos, o paciente se tranquiliza. Por outro lado, o problema pode piorar.

(Foto: Maurício Vieira)

 

 

Fonte: Hoje em Dia ||

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