A primeira dose de álcool é o suficiente para provocar alterações cerebrais que levam à busca de recompensa por mais bebida e à mudança de comportamento. Esse é o resultado prévio de uma pesquisa que está sendo realizada por uma cientista brasileira nos Estados Unidos e foi apresentada na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

A farmacologista Karina Abrahão, doutora pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e membro do Laboratório de Neurociência do Instituto Nacional de Abuso de Álcool e Alcoolismo – que integra os Institutos Nacionais de Saúde (NIH), nos EUA –, está estudando esses efeitos já nas primeiras doses de etanol desde 2014. “Usei como base o efeito agudo do álcool, ou seja, aquele que acontece logo depois das primeiras goladas. O estudo ainda está em desenvolvimento, mas sabemos que há, sim, algumas consequências decorrentes disso”, explica.

A pesquisa revela que os primeiros goles alcoólicos geram atividade em regiões do cérebro responsáveis pela recompensa. “Por exemplo: você come um chocolate, gosta e isso vai aumentar os neurotransmissores que atuam com a recompensa, que vão influenciar o cérebro a pedir mais por aquela sensação”, aponta Karina.

Seja com um copo de uísque, uma taça de vinho ou uma lata de cerveja – quantidades consideradas mínimas – e ainda nos primeiros minutos, o álcool começa a agir sobre os neurotransmissores – substâncias responsáveis pelas trocas de mensagens entre as células cerebrais. Principalmente sobre dois, fundamentais para o comportamento humano: o ácido gama-aminoburítico (Gaba) e a serotonina.

Os neurotransmissores estão divididos em dois grupos: excitatórios, quando estimulam a atividade elétrica do cérebro, ou inibitórios, quando a reduzem. O etanol aumenta os efeitos do Gaba, um neurotransmissor inibitório, o que causa os movimentos lentos e a fala enrolada que pode se observar em pessoas alcoolizadas.

Simultaneamente, inibe o neurotransmissor excitatório glutamato, suprimindo seus efeitos estimulantes. Isso deixa as pessoas mais relaxadas e com capacidade de interagir melhor com grupos. Quanto mais Gaba, mais autocontrole.

Quase ao mesmo tempo, o álcool também aumenta a liberação de serotonina, que regula o prazer e o humor. Com mais serotonina, que é considerado o hormônio da felicidade, as pessoas ficam mais eufóricas – e podem ser tornar mais violentas.

 O consumo de álcool per capita no país aumentou 43,5% em dez anos. Em 2006, cada brasileiro a partir de 15 anos bebia 6,2 litros de álcool por ano. No ano passado, a taxa chegou a 8,9 litros.

 Expectativa é tratar o alcoolismo antes do vício

As descobertas podem ajudar no tratamento de pacientes durante o abuso do álcool, ou seja, antes mesmo de eles criarem a dependência química, defende a farmacologista Karina Abrahão. Isso pode evitar que o consumo alcoólico chegue a níveis mais drástico. “Entendendo melhor os detalhes do efeito alcoólico no cérebro, melhor entenderemos como combatê-los”, pondera.

As maiores alterações eletrofisiológicas do álcool foram registradas na região do tálamo, que é um dos principais centros da organização cerebral. Isso porque o etanol é uma substância complexa, com ação farmacológica muito variada e que atua como depressor sobre o Sistema Nervoso Central (SNC).

 

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Fonte:

O Tempo