A suspeita de que o Programa Mais Médicos possa sofrer sabotagem, aventada pelo Ministério da Saúde, foi reforçada pelo balanço da primeira rodada de inscrições. Segundo o levantamento divulgado ontem, 18.450 profissionais se inscreveram, mas apenas 3.123 finalizaram o cadastro até a noite de quinta-feira. Os 15.327 médicos restantes, que representam 83% do total, apresentaram algum problema durante o processo, como o envio de documentação incompleta. Minas foi o segundo estado que mais pediu profissionais No país, 3.511 cidades pediram a contratação de 15.460 médicos.
Do total de inscrições falhas, 8.307 tiveram números inválidos de registro em conselhos regionais de medicina (CRMs). Também houve o cadastro de 1.270 médicos já vinculados a algum programa de residência, que terão de formalizar o desligamento da especialização antes de homologar a adesão ao Mais Médicos, que oferece bolsa de R$ 10 mil para quem quiser trabalhar na área de atenção básica em lugares preestabelecidos pelo governo federal. O prazo para inscrição se encerraria na noite de quinta-feira, mas foi prorrogado por causa do grande volume de inscrições inconclusas. Os interessados podem corrigir as irregularidades até a noite de amanhã.
?Nossos mecanismos de filtro identificaram essas situações?, afirmou o ministro Alexandre Padilha, que divulgou os dados. Ele disse acreditar que ao menos parte das pessoas com inscrições inválidas tenha interesse em participar do programa, mas ressaltou que só terá clareza disso após a conclusão do processo de cadastramento. ?Não cabe a mim ser otimista ou pessimista em relação a isso?, reforçou. Padilha voltou a falar da possibilidade de que tenha havido uma espécie de sabotagem ao programa. ?Essa suspeita só vai acabar quando a Polícia Federal (PF) encerrar sua investigação?, apontou.
A PF abriu inquérito a pedido do ministério, que recebeu denúncias de que mensagens difundidas nas redes sociais orientavam médicos a se inscreverem em massa, mas não finalizarem a inscrição, como forma de tumultuar a programa. A ação buscava ?atrasar a oferta de médicos ao municípios?, constatou Padilha. ?A apuração da PF vai nos permitir identificar se isso existiu e se continua existindo?, observou. ?Acionamos a polícia para proteger os médicos que têm interesse em trabalhar nas periferias e em cidades do interior?, acrescentou.
Segundo o balanço divulgado ontem, 1.920 inscritos se formaram no exterior e têm registros de atividade médica em 61 países. O ministério não divulgou quantos desses profissionais são brasileiros ou estrangeiros. A maior parte deles atua em Portugal, Espanha e Argentina, apontou Padilha. Também há alguns atuando em Cuba, mas a pasta não informou o número.

<2>Minas

Das cidades inscritas no país, 1.449 são tidas como prioritárias pelo governo por seu maior grau de vulnerabilidade social. Em Minas, 495 municípios aderiram ao programa, 58% do total no estado. Apesar disso, os participantes mineiros pediram 1.806 médicos, 11,68% do total requisitado no país e segundo maior montante entre os estados, atrás apenas de São Paulo (2.197). Belo Horizonte pediu 120 profissionais. O ministério não divulgou a demanda das outras cidades de Minas.
O governo pretende admitir ao menos 10 mil médicos, com preferência para brasileiros formados no país, mas quer destinar as vagas não preenchidas a pessoas formadas no exterior, que teriam permissão para trabalhar por até três anos no programa. Eles não precisariam prestar o Revalida, exame que serve para validar diplomas estrangeiros, mas passariam por uma formação de três semanas em universidades federais. Nesta primeira etapa, inscreveram-se 41 instituições responsáveis por supervisionar a atuação dos contratados. A segunda rodada de inscrições começa em 15 de agosto.
As entidades médicas brasileiras já fizeram pelo menos três manifestações se posicionando contra o Programa Mais Médicos. Eles pedem, principalmente, que os médicos estrangeiros façam o Revalida e que as prefeituras ou o governo federal façam concurso público para dar aos médicos garantias trabalhistas nos municípios.

print
Comentários