O ex-prefeito de Formiga, Aluísio Veloso, no ano de 2010 conseguiu com muito tato e cuidado iniciar e manter um diálogo com o “andarilho” conhecido como Bob Marley. Aluísio registrou tudo no texto por ele intitulado “Um homem na Política de Formiga’’. Na quinta-feira passada (17) Bob Marley foi agredido a tijoladas, desta forma o Nova Imprensa reproduz o texto de Aluísio.

Além de trazer à luz a verdade sobre o Bob Marley, o texto, publicado em 2014, nos faz relembrar com saudades deste lado doce e mais que humano, característicos do amigo Aluísio, falecido no ano passado. Confira o texto original na íntegra:

Um homem na “Política de Formiga”

“Bob Marley” – Sr. Milton Gonçalves da Silva…

Quem passa pelo centro da cidade de Formiga já deve ter deparado com um senhor de cor negra, cabelos encaracolados [dreads], meia idade, estatura média, roupas muito sujas e puídas, um morador de rua que estabeleceu na portaria da Minas Caixa como sendo sua residência e que durante o dia vive perambulando pelas ruas do centro.

Pouquíssimos sabem seu nome e sua origem e por isso, o apelidaram de “Sabonetinho”e“Bob Marley”, devido a sua aparência com o cantor jamaicano.

Ele é de pouca conversa, mas xingar ele sabe muito bem e por qualquer motivo diz palavrões impróprios para a caixa timpânica de qualquer um. E por ser assim, quase nada sabemos sobre a sua vida. O certo é que ele está aqui em Formiga há uma década, e mora debaixo da marquise da Minas Caixa.

Em 15 de junho de 2010, eu saia da Escola de Línguas Helena Kemper, depois das 21h, que fica no mesmo prédio onde ele fez sua moradia. Cumprimentei e ele respondeu-me, puxei conversa, e consegui saber dele o seu nome completo e a sua naturalidade. Seu nome é Milton Gonçalves da Silva, baiano, natural de Santo Antônio de Jesus, uma cidade do Recôncavo Baiano, município muito conhecido, como a Capital do Recôncavo, famosa por suas festas juninas que tem como padroeiro Santo Antônio.

Pegando carona na nossa conversa, ele me pediu um trocado para um lanche. Fui até a Lanchonete Asa Branca, comprei dois salgados mais um refrigerante em lata e levei para ele.

Agradeceu-me e logo começou a comê-los.

No dia seguinte ao adentrar novamente na Escola, lá estava ele no maior papo com o “Canela”, outro morador de rua. Pediu-me um trocado, dei-lhe uma cédula de R$2 e nada para o “Canela”. Instantaneamente me veio o arrependimento daquele ato, agradar um e não agradar o outro. Imediatamente, tirei da carteira duas notas de R$5 e dei para cada um deles. Ele riu até, foi a gargalhada mais feliz que eu já presenciei em minha vida, porque ele ganhou R$2 a mais do que o seu companheiro. Noutro dia, encontrei com ele novamente no mesmo lugar, fui logo cumprimentando com um aperto de mão, puxei um papo mais longo o que acabou atrasando minha aula de espanhol, mas valeu a pena.

Ele me disse que era da Polícia Militar da Bahia, graduado como soldado, e que um dia resolveu desertar da corporação e sair pelo mundo, ser livre, não queria ficar preso naquela farda, que ele considerava como a menor jaula do mundo. Foi o que aconteceu. Tinha como destino conhecer a “Terra da Garoa”, São Paulo. Depois de divagar muito pelas estradas, resolveu entrar na cidade e acabou encurtando a viagem, e estacionou-se de vez aqui em Formiga. “Simpatizei com esta cidade e com o povo daqui, ninguém faz chacota de mim, além disso, estou bem instalado morando no coração da cidade, não me falta nada”, arrematou a conversa, mas continuei puxando a língua dele:

Seu Milton, você é casado ou solteiro, arrisquei a pergunta.  Respondeu-me:“não entra neste assunto, este papo não te interessa, não interessa a Deus e nem a mim e a ninguém!” Em seguida ele me interrogou: “Porque o senhor esta querendo saber tanto de minha vida?”.

“Sabe de uma coisa moço, vou te contar mais, fui casado, tenho uma filha que é advogada e uma sobrinha que é Promotora de Justiça lá na Bahia, procure saber!”.

No inverno do ano passado, o frio estava de rachar, eu novamente saindo do curso de espanhol, lá o encontrei no estado decúbito ventral, tomado por um sono profundo, com certeza seu organismo estava recompondo as energias do desgaste durante o dia, sobre o gélido mármore do 2º degrau da escadaria que dá acesso aos andares superiores, sem nenhum cobertor, papelão ou jornal para proteger daquele frio intenso, a única coisa que lhe protegia era a marquise do prédio. Confesso que fiquei comovido com aquele quadro. Fui a minha casa, pequei meu cobertor de estimação, que nos aqueceria naquela noite e voltei ao local, e vagarosamente, fui estendendo o cobertor sobre ele. Quando estava terminando a audácia, ele deu um pulo como um gato fugindo da onça, assustei muito, e ao reconhecer-me, deu aquele sorriso desconfiado, deitou novamente, cobriu do seu jeito e caiu no sono, extasiado.

Ele é um sujeito esperto, quando alguém lhe dá um prato de comida, dizem que aceita, mas não come, pois tem medo de ser envenenado, mas se levar um marmitex lacrado, aí ele come, pois acredita que se houver veneno outras pessoas também podem envenenar-se. Como diz o ditado, “passarinho arisco não cai em alçapão!”… Excelente Foto. Ele saiu da Polícia, mas a Polícia não saiu dele. Continência de militar perfeita…

Assim ele vai levando a vida, divagando pelas ruas de nossa cidade, sem compromisso, sem responsabilidade, livre e feliz.

Aluísio Veloso da Cunha, Formiga, 25 de abril de 2014

Frases que ele me disse e consegui gravar:

“Sou feliz do jeito que sou, não vou mudar meu jeito de ser, não me incomoda o que a sociedade pensa de mim, estou vivendo simplesmente do meu modo e você da sua maneira, não precisa ter pena de mim”. [Redigido a meu modo].

“Não faço nada de errado, o que eu vivo e faço só colabora para a minha felicidade”. [Redigido a meu modo].

 

OBSERVAÇÃO: a Lei 9074/95 regulamenta as autorizações de autobiografias… Por Aluísio Veloso da Cunha Luciano Alves Cunha…”.

(Fotos: reprodução Facebook)

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