Risco de desabastecimento de água dobra com falta de chuva

Reservatórios do Sudeste e Centro-oeste estão com menos de 20%; o normal para a época é de 80%. A falta de chuvas se deve ao resfriamento da porção norte do Oceano Pacífico

Reservatórios do Sudeste e Centro-oeste estão com menos de 20%; o normal para a época é de 80%. A falta de chuvas se deve ao resfriamento da porção norte do Oceano Pacífico

A estação chuvosa já está na metade e até agora não justificou seu nome: ainda não choveu. Pelo menos em volume significativo para encher os reservatórios e afastar o risco de desabastecimento de água e energia para este ano. ?A expectativa antes do período úmido é que ele fosse melhor do que o de 2014, mas não é isso que está acontecendo. A cada dia que passa sem chuva, aumenta o risco de racionamento em 2015?, diz o gerente de regulação da Safira Energia, Fábio Cuberos.
O presidente da Thymos Energia, João Carlos Mello, diz que o risco de haver um racionamento de energia neste ano quase dobrou, pois é de 40%, ante 20 % a 25% na mesma época do ano passado. O aceitável para a segurança do sistema é de 5%. Esses percentuais são calculados com base no cenário atual dos reservatórios e com as expectativas de uso e de chuvas para o período.
No caso da energia, os reservatórios das hidrelétricas monitorados pelo Operador Nacional do Sistema (ONS) nas regiões Sudeste e Centro-Oeste estão com menos de 20% de água armazenada. O percentual é o menor desde o início da série histórica, em 2000, quando o nível estava em 29%. Desde então, poucas vezes o nível esteve abaixo da metade e em vários anos chegou perto dos 80% nesta época.
Já os reservatórios monitorados pela Agência Nacional de Águas (ANA) estão, em sua maioria, abaixo dos 30% nas bacias que cortam Minas Gerais (Doce, São Francisco e Paraíba do Sul).
A chuva que não caiu até agora não deve começar nesta semana. De acordo com o meteorologista do TempoClima da PUC Minas, Heriberto dos Anjos, a perspectiva não é boa. ?A chuva que precisamos é aquela associada a uma frente fria, que dura vários dias. O comportamento das massas que estão atuando é desfavorável?, diz.
Resfriamento da porção norte do Oceano Pacífico
A falta de chuvas nos verões brasieiros e a seca na Califórnia, que enfrenta a pior estiagem em 1,2 mil anos, têm muita coisa em comum: o resfriamento da porção norte do Oceano Pacífico. A cada 50 ou 60 anos, a queda da temperatura do Pacífico ? que afeta o padrão climático em praticamente todo o mundo, com consequências diferentes em cada região ? tem tornado a distribuição de chuva no Brasil irregular.
Chamado de Oscilação Decadal do Pacífico (PDO, na sigla em inglês), o fenômeno caracteriza-se pela alternância entre fases quentes e frias na área tropical e subtropical do Oceano Pacífico, principalmente no Hemisfério Norte. Cada ciclo dura de 25 a 30 anos e afeta cada parte do planeta de forma distinta.
Atualmente, o oceano está no auge da fase fria. Na última fase fria, entre o fim dos anos 50 e início dos anos 60, o Brasil enfrentou quatro anos seguidos de verões secos. Caso o padrão se repita, as chuvas só voltarão ao normal em 2016.
Desde 2012, quando começou o auge da fase fria do Pacífico, o Brasil enfrenta verões com chuvas abaixo da média. No Centro-Oeste, a PDO leva a verões com chuvas mal distribuídas. No entanto, o que deixa de chover em um mês é compensado nos meses seguintes. No Sudeste, principalmente em Minas Gerais, o fenômeno origina verões secos. Atualmente, Tocantins, Piauí e Maranhão também atravessam período de seca, mas a estiagem deve-se ao resfriamento do Oceano Atlântico na costa do Nordeste, sem relação direta com a PDO.
As fases frias da Oscilação Decadal do Pacífico estão associadas a manifestações fracas do El Niño, aquecimento do Oceano Pacífico na porção equatorial (próximo à Linha do Equador). Para este ano, estava previsto um El Niño que levaria a chuvas um pouco acima do normal nas regiões Sul e Sudeste no início de 2015. No entanto, a temperatura do oceano na região equatorial ainda está em condições neutras. Até agora, o El Niño não se formou.
?O aquecimento provocado pelo El Niño, que começaria em julho do ano passado, só ocorreu na primavera. Mesmo assim em intensidade baixa demais para que seja decretado o El Niño. Por enquanto, o Pacífico está em condições de neutralidade?, explica o diretor-geral da Metsul Meteorologia Eugenio Hackbart.

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Sobre o autor

André Ribeiro

Designer do portal Últimas Notícias, especializado em ricas experiências de interação para a web. Tecnófilo por natureza e apaixonado por design gráfico. É graduado em Bacharelado em Sistemas de Informação pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.

Risco de desabastecimento de água dobra com falta de chuva

Reservatórios do Sudeste e Centro-oeste estão com menos de 20%; o normal para a época é de 80%. A falta de chuvas se deve ao resfriamento da porção norte do Oceano Pacífico.

Reservatórios do Sudeste e Centro-oeste estão com menos de 20%; o normal para a época é de 80%. A falta de chuvas se deve ao resfriamento da porção norte do Oceano Pacífico.

 

A estação chuvosa já está na metade e até agora não justificou seu nome: ainda não choveu. Pelo menos em volume significativo para encher os reservatórios e afastar o risco de desabastecimento de água e energia para este ano. “A expectativa antes do período úmido é que ele fosse melhor do que o de 2014, mas não é isso que está acontecendo. A cada dia que passa sem chuva, aumenta o risco de racionamento em 2015”, diz o gerente de regulação da Safira Energia, Fábio Cuberos.

O presidente da Thymos Energia, João Carlos Mello, diz que o risco de haver um racionamento de energia neste ano quase dobrou, pois é de 40%, ante 20 % a 25% na mesma época do ano passado. O aceitável para a segurança do sistema é de 5%. Esses percentuais são calculados com base no cenário atual dos reservatórios e com as expectativas de uso e de chuvas para o período.

No caso da energia, os reservatórios das hidrelétricas monitorados pelo Operador Nacional do Sistema (ONS) nas regiões Sudeste e Centro-Oeste estão com menos de 20% de água armazenada. O percentual é o menor desde o início da série histórica, em 2000, quando o nível estava em 29%. Desde então, poucas vezes o nível esteve abaixo da metade e em vários anos chegou perto dos 80% nesta época.

Já os reservatórios monitorados pela Agência Nacional de Águas (ANA) estão, em sua maioria, abaixo dos 30% nas bacias que cortam Minas Gerais (Doce, São Francisco e Paraíba do Sul).

A chuva que não caiu até agora não deve começar nesta semana. De acordo com o meteorologista do TempoClima da PUC Minas, Heriberto dos Anjos, a perspectiva não é boa. “A chuva que precisamos é aquela associada a uma frente fria, que dura vários dias. O comportamento das massas que estão atuando é desfavorável”, diz.

 

Resfriamento da porção norte do Oceano Pacífico

A falta de chuvas nos verões brasieiros e a seca na Califórnia, que enfrenta a pior estiagem em 1,2 mil anos, têm muita coisa em comum: o resfriamento da porção norte do Oceano Pacífico. A cada 50 ou 60 anos, a queda da temperatura do Pacífico – que afeta o padrão climático em praticamente todo o mundo, com consequências diferentes em cada região – tem tornado a distribuição de chuva no Brasil irregular.

Chamado de Oscilação Decadal do Pacífico (PDO, na sigla em inglês), o fenômeno caracteriza-se pela alternância entre fases quentes e frias na área tropical e subtropical do Oceano Pacífico, principalmente no Hemisfério Norte. Cada ciclo dura de 25 a 30 anos e afeta cada parte do planeta de forma distinta.

Atualmente, o oceano está no auge da fase fria. Na última fase fria, entre o fim dos anos 50 e início dos anos 60, o Brasil enfrentou quatro anos seguidos de verões secos. Caso o padrão se repita, as chuvas só voltarão ao normal em 2016.

Desde 2012, quando começou o auge da fase fria do Pacífico, o Brasil enfrenta verões com chuvas abaixo da média. No Centro-Oeste, a PDO leva a verões com chuvas mal distribuídas. No entanto, o que deixa de chover em um mês é compensado nos meses seguintes. No Sudeste, principalmente em Minas Gerais, o fenômeno origina verões secos. Atualmente, Tocantins, Piauí e Maranhão também atravessam período de seca, mas a estiagem deve-se ao resfriamento do Oceano Atlântico na costa do Nordeste, sem relação direta com a PDO.

As fases frias da Oscilação Decadal do Pacífico estão associadas a manifestações fracas do El Niño, aquecimento do Oceano Pacífico na porção equatorial (próximo à Linha do Equador). Para este ano, estava previsto um El Niño que levaria a chuvas um pouco acima do normal nas regiões Sul e Sudeste no início de 2015. No entanto, a temperatura do oceano na região equatorial ainda está em condições neutras. Até agora, o El Niño não se formou.

“O aquecimento provocado pelo El Niño, que começaria em julho do ano passado, só ocorreu na primavera. Mesmo assim em intensidade baixa demais para que seja decretado o El Niño. Por enquanto, o Pacífico está em condições de neutralidade”, explica o diretor-geral da Metsul Meteorologia Eugenio Hackbart.

Redação do Jornal Nova Imprensa O Tempo / Agência Brasil

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Sobre o autor

André Ribeiro

Designer do portal Últimas Notícias, especializado em ricas experiências de interação para a web. Tecnófilo por natureza e apaixonado por design gráfico. É graduado em Bacharelado em Sistemas de Informação pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.

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