Dos dias de terror com a paralisação dos caminhoneiros não podem restar apenas os prejuízos para todos os setores da economia, inclusive daquele que levou o país à lona. Ainda não contabilizamos o prejuízo, mas já se sabe que muitas empresas e produtores não vão resistir aos prejuízos de dias parados nas estradas e de muitos outros de recuperação das atividades, como, por exemplo, o setor siderúrgico.
São muitas as causas da paralisação dos caminhoneiros, um movimento que foi gestado por muito tempo e que teve como uma das motivações, por estranho que pareça, o excesso de oferta em relação à demanda. Muitos caminhões para pouca carga, denunciou a Confederação Nacional da Indústria logo nos primeiros dias do movimento. Causas desse desequilíbrio? A irresponsável política de financiamento facilitado de caminhões a título de renovação da frota, seguida de uma recessão que já dura meia década. Sem carga e com diesel caro, muitos, autônomos e transportadores, se desesperaram e buscaram uma saída.
A política de preços da Petrobras foi apenas a ponta visível de uma sequência de erros de planejamento, a que se somou muita safadeza de nossos governantes, levando o setor de transporte para o buraco. O problema é que, ao cair, arrastou todos os demais setores para o caos.
Não podemos nos dar ao luxo de olhar e apenas lamentar os prejuízos. Precisamos nos conscientizar de que eles são decorrentes de nossas escolhas políticas. Os caminhões parados à beira das estradas apenas compunham um quadro cujo fundo é a omissão e incompetência de nossos governantes.
De um lado, um Executivo perdido, sem rumo, buscando uma porta de asa de um labirinto que ele próprio construiu ao longo dos anos. De outro, um Legislativo omisso, ausente, covarde diante dos fatos e do medo de perder votos. E não se diga que esse quadro retrata apenas o Congresso e o governo federal. Esta foi a realidade de governos e Legislativos estaduais também. Em plena crise, silêncio de quem tinha o dever de falar e assanhamento verbal de quem deveria ser discreto, não se aproveitando do caos para fazer campanha eleitoral com discurso populista.
Não precisamos de nada do que simplesmente votar para renovar. Precisamos do engajamento da sociedade. Muito mais do que implantar novos modais de transporte – o rodoviário está saturado e falido –, a greve dos caminhoneiros mostrou que precisamos substituir muita coisa no país. A começar, me parece, pelo Estado empresário, que já, de muito, se mostrou incompetente. Mas, notem, este é apenas um tema. O Brasil tem muitos, muitos outros temas a discutir. Infinitos problemas a resolver.
A greve dos caminhoneiros escancarou a grave situação do país. É hora do engajamento de todos nessa luta. Está bem, vamos esperar a Copa do Mundo passar! Mas, depois, pé na estrada para sabermos as mudanças: de nomes, de conceitos e de hábitos. É nosso único caminho para a salvação.

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