Embora tenha conseguido aprovar alguns projetos aos trancos e barrancos, como a reforma administrativa e a reforma da Previdência, a relação entre Executivo e Legislativo nunca foi boa, desde a desconfiança inicial dos deputados com a eleição de um governador que negava a política até mais recentemente, quando Zema insinuou que os parlamentares eram mercenários. 

Logo em seguida a essa fala, porém, o governador tentou ganhar crédito pelo auxílio emergencial de R$ 600, uma ideia que surgiu na ALMG, o que irritou os deputados. As críticas na sexta-feira (30) foram duras. O presidente Agostinho Patrus (PV), por exemplo, insinuou que o governador podia estar cometendo um crime. 

“Governador Zema, se apropriar indevidamente de uma iniciativa sem consentimento do proprietário é crime previsto no Código Penal. Na vida, dar crédito pelas ideias é importante”, escreveu.

Para o líder da oposição, André Quintão, os deslizes do governador contribuem para um distanciamento político entre a Assembleia Legislativa e o governo. Na opinião dele, os dois últimos episódios são os mais graves desde o início do governo.

“A entrevista em que ele [Zema] insinua que os deputados agem em defesa de interesses próprios porque houve uma generalização e um ataque direto ao Legislativo, e essa última que foi uma tentativa de uma apropriação política de uma ação da Assembleia. Não vou fazer aqui um julgamento da motivação, mas são episódios que dificultam um relacionamento mais harmônico”, avaliou Quintão.

O líder da oposição ressalta, porém, que a ALMG não está “retribuindo essas deselegâncias” do governador e que o Legislativo está tendo serenidade para não deixar que estes episódios comprometam a votação de projetos fundamentais para Minas Gerais na pandemia.

“A Assembleia Legislativa tem que ficar acima desse tipo de comportamento, que nós não sabemos se são equívocos políticos ou se é uma leitura construída do Partido Novo sobre o parlamento, se é uma estratégia de relacionamento e de enfraquecimento e desgaste do Legislativo”, completou o parlamentar.

O Novo também é citado pelo deputado Arlen Santiago (PTB), do bloco independente, como um fator que exerce influência negativa sobre o governador. Para o parlamentar, Zema faz um bom governo, colocando em dia as dívidas do Estado com os municípios e pagando o salário dos servidores cada vez mais próximo do quinto dia útil.

“Eu acho que o partido Novo exige do Zema um embate com a classe política, que não precisa ter porque a classe política fez tudo que o Zema pediu”, avalia. “É proposital esses embates, é pra poder ficar bem com a turma do Novo? É. Aí dificulta o governo dele, que eu avalio como muito bom. Está resolvendo os problemas que nós achávamos que eram quase insolúveis”, conclui.

Um deputado experiente, que pediu para não ser identificado pois não é o líder do bloco que faz parte, avalia que os ataques do governo Zema ao Legislativo já viraram rotina. 

Ele identifica, porém, uma possível estratégia do governo em dinamitar as pontes com os deputados para ter justificativas para as promessas de campanha que eventualmente não conseguir cumprir, como as privatizações da Cemig e da Copasa, cujos projetos sequer foram apresentados.

“Eu não sei também se o intuito do governo é só construir um álibi. Já vi o governador cobrar a aprovação de projetos que ainda nem foram remetidos para a Assembleia. ‘Ah, eu iria fazer muita coisa, meu governo seria uma maravilha, mas a Assembleia não deixou. Preferem o álibi”, diz

A reportagem tentou ouvir o secretário de Governo, Igor Eto, que é filiado ao Novo e cuida da relação do governo com o Legislativo, mas não obteve resposta.

“Foi uma turbulência”, diz líder do Governo

O líder de Governo, Gustavo Valadares (PSDB), avalia que o momento atual está longe de ser pior no relacionamento entre Governo e ALMG. Para ele, o episódio envolvendo a “paternidade” do auxílio emergencial foi uma turbulência, que será superada.

“Está longe de ser o pior momento. Pensa em um avião velocidade cruzeiro [em que ele alcança maior velocidade]: de vez em quando aparece uma turbulência. Eu encarei e tô encarando essa situação da semana passada como uma turbulência. Um pouco mais forte, mas uma turbulência”, disse.

Para o deputado, o ponto mais baixo da relação foi no início do governo em 2019, quando havia uma desconfiança dos dois lados, “natural de quem não se conhece”, mas que desde então a relação vem melhorando a cada dia. Valadares considera que não faltarão chances para reconstruir o diálogo entre o Palácio Tiradentes e a Assembleia Legislativa.

“Todo dia aparece uma nova oportunidade. Eu sou otimista por natureza. Eu acredito que a gente vai conseguir uma boa relação, uma relação cordial e que nós vamos aprovar os projetos para Minas. O acordo com a Vale, a adesão ao Regime de Recuperação Fiscal. Nós vamos conseguir construir isso”, afirma.

Fonte: O Tempo

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