Mais de um terço dos candidatos autodeclarados negros e aprovados no primeiro semestre da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) foram barrados pela banca de heteroidentificação racial, grupo que analisa as características físicas dos cotistas. Ao todo, dos 885 que tiveram aspectos como cor de pele e textura do cabelo analisadas, 346 não conseguiram o aval para ingressar na universidade por meio do benefício. Os números englobam alunos de BH e Montes Claros, no Norte de Minas.

É a primeira vez que uma junta formada por professores, funcionários e alunos da Federal avaliam objetivamente critérios fenotípicos de postulantes às vagas reservadas. Os reprovados podem entrar com recurso. Nesse caso, uma segunda equipe faz a reavaliação que prevalece e é definitiva.

O grupo que verifica os estudantes é formado por pessoas ligadas aos debates raciais. Todas passam por treinamento específico antes da realização da banca, diz o professor Rodrigo Ednilson, presidente da Comissão Permanente de Ações Afirmativas e Inclusão da UFMG. “Nos baseamos em um conjunto de fatores e não em uma tabela cromática. É uma abordagem social para verificar se aquele candidato, no cotidiano, é ‘lido’ como um negro”, explica.

Merecedores

A proposta da nova etapa para admissão de universitários é garantir que as reservas sejam ocupadas por alunos merecedores das vagas, evitando que episódios de fraudes se repitam. Em setembro de 2017, graduandos brancos que tinham ingressado na universidade por meio de cotas geraram polêmica em todo o país.

No ano passado, vários casos semelhantes vieram à tona e um dossiê com outras suspeitas de burlar o sistema chegou a ser entregue à reitoria. Até o momento, ninguém foi punido. “As denúncias estão em sindicância ou processo administrativo, em fase de finalização”, comentou Ednilson.

Para calouros que foram aprovados na banca de heteroidentificação e iniciam, hoje, a jornada acadêmica, a única certeza é de que o procedimento torna o preenchimento das vagas mais justo. “É algo com o qual não estávamos acostumados, mas com certeza veio em boa hora”, avalia Isadora Pacífico de Souza, de 23 anos, aluna do curso de ciências do estado na UFMG.

Também é esse o pensamento de Raquel Zeferino da Silva, de 19, da mesma turma. “Muitos colegas estranharam inicialmente, mas todo mundo concorda ser mais um excelente recurso para garantir que o propósito das cotas seja cumprido”, opina.

Benefícios

Professora de direito constitucional da PUC Minas, Nádia de Castro Alves garante que o trabalho realizado pela banca trará ganhos não apenas para os alunos, mas para toda a sociedade. “Os resultados positivos das ações afirmativas já são importantes no curto prazo”, afirma. “E a ideia é que, no futuro, elas não sejam mais necessárias”, acrescenta a docente, que também leciona direitos humanos.

Para o presidente da União de Negros pela Igualdade (Unegro), Alexandre Braga, que também é membro da Comissão de Heteroidentificação Racial da UFMG, os avanços já são nítidos. “O número de reprovados chama a atenção, mas pelo menos o perfil do fraudador típico (um branco que tenta o benefício) não foi visto nas bancas”, relata.

Arte: Hoje em Dia

 

Fonte: Hoje em Dia ||

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