Mesmo uma experiente colunista, como Eliane Catanhêde, pode derrapar e se dar mal diante do vocabulário bizarro dos políticos em Brasília.
Na sexta-feira da semana passada, comentando a indicação de Cristiane Brasil, filha do ex-deputado e presidente do PTB (aquele do mensalão petista) Roberto Jefferson, para dirigir o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), ela escreveu que estranhava que se tivesse dito que Temer iria fazer um “governo de notáveis”. Faltariam à moça requisitos de expertise em Trabalho…
Tome tento, d. Eliane, e não confunda o sentido corriqueiro das palavras com as muito estranhas práticas políticas da Brasília real: fui secretária executiva do MTE no primeiro governo Lula e sei muito bem do que estou a escrever. Cristiane Brasil é uma notável – na inteira expressão do termo, tal qual ele é usado pelos entendidos na capital federal. Seu pai é sem dúvida nenhuma um expert (e como!!!) nas questões vinculadas ao ministério que a filha agora passa a presidir. Temer não faria nenhuma melhor escolha do que entregar o galinheiro para as raposas tomarem conta.
Quando Lula tomou posse, já fizéramos uma primeira avaliação do papel do MTE sob o ângulo do que ele representara ao longo dos anos anteriores e sobre o que deveríamos mudar. Sabíamos com certeza onde estávamos pisando, e a mim, como a principal administradora, caberia viabilizar uma série de providências para tocar o ministério, sobretudo para enfrentar os cruciais “primeiros cem dias”.
Em síntese, por causa de dois fundos dos trabalhadores, o FAT e o FGTS, gerenciados por ele, o MTE fora, nos governos anteriores, o provedor-mor de grana para todo tipo de iniciativa da máquina governamental. Quanto ao FAT, este operava com o BNDES para a realização das operações especiais, sem nenhum controle, e havia dinheiro para ser desperdiçado pelas entidades sindicais e até religiosas, que diziam fazer requalificação profissional, desnudadas por auditorias feitas por nós. O Codefat era um condomínio entre patrões, empregados e representantes governamentais, e nele ONGs iam buscar fundos para prestar “benefícios” destinados a melhorar a vida dos pobres trabalhadores. Além do mais, o Codefat gerenciava também, em parceria com a Caixa Econômica Federal, o Programa do Seguro-Desemprego, fonte de não sei quantas maracutaias. Quanto ao FGTS, este, embora recolhido pelo MTE, na realidade seria entregue ao novo ministério criado por Lula, o das Cidades.
Em toda essa parafernália anterior (FAT, FGTS e Seguro-Desemprego com a CEF), reinavam exatamente o sr. Roberto Jefferson e o ex-ministro do Trabalho, ambos do Rio e ambos representantes do autointitulado legítimo partido dos trabalhadores, o PTB de d. Cristiane Brasil. Dou um exemplo: o MTE não conseguia nunca fazer inspeção na Petrobras porque esses senhores não deixavam.
Como, então, doutora Eliane, a moça não está apta a tomar posse?
A menos que a liminar contra isso realize o que chamam de “judicialização da política”…

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